
Na semana em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva destaca a trajetória da abrasquiana Deborah Carvalho Malta, um dos principais nomes da ciência no Brasil. Professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a pesquisadora foi agraciada na categoria Trajetória do 2° Prêmio Mulheres e Ciência. A iniciativa é do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o Ministério das Mulheres, o British Council Brasil e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe. A cerimônia de premiação acontece no dia 5 de março de 2026, na sede do CNPq, em Brasília.
Com uma trajetória marcada por intensa produção científica e forte contribuição para a formulação e avaliação de políticas públicas de saúde, Deborah Malta é epidemiologista e referência em temas como doenças crônicas não transmissíveis, vigilância em saúde e inquéritos populacionais. Ao longo de sua carreira, participou e coordenou importantes iniciativas nacionais que produziram evidências fundamentais para o fortalecimento das políticas públicas e do Sistema Único de Saúde (SUS).
Sua trajetória acadêmica já lhe rendeu outros importantes reconhecimentos nacionais e internacionais. Deborah Malta foi a pesquisadora brasileira mais bem classificada no portal acadêmico Research.com entre as mil cientistas mulheres do mundo nos anos de 2022, 2023, 2024 e 2025. A pesquisadora também está entre os cientistas brasileiros que mais influenciam políticas públicas no mundo, segundo levantamento da Agência Bori divulgado no ano passado.
Nesta entrevista à Abrasco, ela reflete sobre o significado do prêmio, os desafios enfrentados pelas mulheres na ciência e a importância de ampliar a presença feminina na produção de conhecimento científico. Confira:
Abrasco: Na sua opinião, por que é fundamental incentivar a participação de mulheres na ciência, e como esse incentivo pode contribuir não apenas para a equidade de gênero, mas também para o avanço da ciência como um todo?
Deborah Malta: A UNESCO destaca a imensa disparidade de gênero na ciência, as mulheres representam apenas um terço das cientistas do mundo. Preconceitos, estereótipos de gênero e a falta de apoio ainda minam a continuidade e o sucesso de carreiras promissoras pelo mundo.
Incentivar meninas e mulheres requer decisão política para a superação destas barreiras. A participação da mulher na ciência agrega novos olhares, novas perguntas e temas, como a perspectiva do cuidado em saúde e da diversidade, tornando-se essencial para a Ciência, Tecnologia e Inovação.
Abrasco – O que esse reconhecimento no 2º Prêmio Mulheres e Ciência representa para você, tanto no plano pessoal quanto em relação à sua trajetória profissional? Houve algum momento marcante nessa conquista que gostaria de compartilhar?
Deborah Malta – Muito me honra ser indicada para o “Prêmio Mulher e Ciência”, na categoria “Trajetória”. O prêmio tem uma importância estratégica de valorização do papel da mulher na Ciência, buscando a equidade de gênero, apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas como: a dupla jornada, a falta de apoio na carreira, a sociedade patriarcal e o machismo estrutural.
Em especial, senti como se fosse uma premiação coletiva. Uma carreira se constrói com apoio da rede familiar, colegas e parceiros, alunos, do grupo de pesquisa, das agencias de fomento e, no meu caso, em especial, o apoio do Ministério da Saúde e da UFMG.
Destacaria a importância de ter trabalhado anteriormente à entrada na UFMG na gestão do SUS em Belo Horizonte e Timoteo, o que transformou minha visão como sanitarista e epidemiologista. Em 2004 fui cedida a Secretaria de Vigilância em Saúde/ Ministério da Saúde pela UFMG e isto transformou meu olhar como pesquisadora. A minha participação e coordenação em importantes inquéritos nacionais como: a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PENSE), Vigilancia de Doencas Cronicas Não Transmissíveis por telefone (Vigitel), a implantação da notificação compulsória de Violências domesticas ao SINAN , foram fundamentais para a utilização das informações geradas por estes inquéritos na implantação de importantes politicas publicas nacionais. Desta forma, pudemos, no Ministério da Saúde, utilizar as evidencias na construção de políticas públicas, como a Politica Nacional de Promoção da Saúde em 2006 e sua revisão em 2014, o Plano de Enfrentamento de Doenças Crônicas não Transmissíveis 2011- 2022, o Projeto Vida no Transito em 2010, a Rede de Prevenção de Violências, dentre outros. No retorno à UFMG em 2016, estas pautas foram incorporadas nas nossas pesquisas e muitos alunos e outros docentes puderam contribuir em pesquisas que visam apoiar as politicas de promoção a saúde, nas pesquisas sobre DCNT e Fatores de risco, sobre violência domestica, visando apoiar politicas de equidade em saúde, de inclusão social, em prol da melhoria do SUS.
Abrasco – Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao longo da sua carreira como mulher na ciência? Que conselho daria às mulheres que estão iniciando agora nessa trajetória?
Deborah Malta – Minhas dificuldades foram semelhantes às demais mulheres, dupla jornada, conciliar tempo de criação de filhos pequenos com mestrado e doutorado, cursar mestrado e doutorado concomitante com a gestão em saude, exigindo muita dedicação e esforço.
Diria as nossas meninas e mulheres que a ciência precisa do olhar feminino! A sensibilidade das mulheres faz toda a diferença nas perguntas de pesquisas, no que de deve priorizar nas investigações, por exemplo na área da saúde, temos que incluir os temas das desigualdades em saúde, violência de gênero, equidade de gênero.
Gastem tempo se dedicando ao estudo, primário, fundamental, ensino médio, superior, mestrado, doutorado. Invistam em suas carreiras. Busquem bolsas de pesquisas. Temos muitas bolsas disponíveis de iniciação cientifica ao pós-doutorado. Ousem, lutem pelo seu espaço! Nós temos que alargar o espaço das mulheres na ciência!


