NOTÍCIAS 

10º CSHS: uma trajetória de consolidação da área e construção da Saúde Coletiva

Há mais de três décadas, pesquisadoras, pesquisadores, estudantes, profissionais de saúde, movimentos sociais e diferentes atores que constroem a Saúde Coletiva encontram no Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) um espaço para pensar criticamente, produzir conhecimento e colocar em diálogo diferentes saberes, experiências e perspectivas. Ao longo de nove edições, o CSHS acompanhou transformações sociais, políticas e ajudou a ampliar as formas de compreender a saúde e o cuidado. Em 2026, essa trajetória alcança um marco: a realização do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, de 16 a 19 de setembro, em Manaus (AM) – primeiro evento desse porte organizado pela Abrasco na Região Norte. 

Com o tema “Interculturalidade, Ambiente, Saúde: os desafios do século XXI para uma vida em conexão com os territórios”, o encontro chega pela primeira vez à Amazônia reafirmando uma característica presente em sua própria história: a capacidade de incorporar novas questões, agentes e perspectivas aos debates na Saúde Coletiva. Mais do que reunir a produção científica da área, os Congressos de CSHS ajudaram a consolidar a presença das Ciências Sociais e Humanas no campo, fortalecer redes de pesquisa e colaboração e ampliar o repertório teórico e metodológico utilizado para compreender a saúde em suas dimensões sociais, políticas, econômicas, culturais, históricas, éticas e subjetivas.

Presidente do 10º CSHS, o pesquisador Henrique Saldanha ressalta os esforços que foram feitos para pensar um evento atento e alinhado aos desafios de seu tempo.“Esse é um dos nossos grandes desafios: manter a criticidade que caracteriza a área e seu compromisso com a compreensão dos problemas emergentes da saúde da população brasileira e de seus processos de determinação social, mas fazer isso à luz do nosso tempo. Isso significa renovar os modos de fazer, iluminar novos objetos e agregar novos sujeitos, corpos e territorialidades, sem perder o compromisso com a transformação social que marca a trajetória da área ao longo desses 40 anos. A Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde e seu núcleo gestor, que coordena a construção do Congresso, olham para o passado para se inspirar no legado de quem veio antes de nós, mas também apontam para o futuro, pensando que área queremos construir e qual legado queremos deixar”, registrou.

Para o abrasquiano, pesquisador e professor do Instituto de Medicina Social Hesio Cordeiro da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ), Kenneth Camargo Jr, que participou ativamente da construção do 6º CSHS, os congressos tiveram papel central no processo de incorporar pluralidade à Saúde Coletiva. “Acho que eles são fundamentais, desde o início, no sentido de consolidar esse campo dentro da Saúde Coletiva, de permitir a interação, de fato, pluridisciplinar, que trouxe avanços importantes em termos do desenvolvimento da área da Saúde Coletiva, em termos de pesquisa, de reconhecimento institucional e de crescimento acadêmico”, detalhou. 

O professor reforça ainda que a intensa participação, a riqueza temática e os debates tornaram-se características do encontro. O legado, avalia, está justamente na consolidação da participação de áreas como antropologia, sociologia e história, entre outras perspectivas que passaram a integrar de forma cada vez mais intensa a produção da Saúde Coletiva brasileira.

A contribuição das Ciências Sociais e Humanas ultrapassa, entretanto, os limites de uma área específica de pesquisa. Sua aproximação com os demais núcleos disciplinares da Saúde Coletiva contribuiu para constituir uma maneira particular de observar e interpretar o processo saúde-doença e iniciativas de cuidado no país.

Para o presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, a presença das CSHS foi decisiva para conferir reflexão crítica e sentido transformador às atividades de pesquisa, ensino e organização dos sistemas e serviços de saúde.“O ferramental técnico-científico oriundo das CSHS é o traço mais distintivo da Saúde Coletiva praticada no Brasil, quando comparada com iniciativas semelhantes praticadas na maioria dos países do mundo”, explicou. 

Essa contribuição se expressa na possibilidade de compreender que serviços, tecnologias e políticas de saúde estão inseridos em sociedades marcadas por relações de poder, desigualdades, culturas, territórios, identidades, subjetividades e diferentes formas. É também uma história construída progressivamente, acompanhando o próprio amadurecimento do campo.

Das Ciências Sociais às Ciências Sociais e Humanas em Saúde

Quando a primeira edição do Congresso foi realizada, em 1995, em Curitiba (PR), a área ainda se organizava sob a denominação de Ciências Sociais em Saúde. Na virada do século XX, um movimento importante ampliou esse horizonte. Em 2000, a incorporação das Ciências Humanas expandiu o escopo da então Comissão de Ciências Sociais em Saúde da Abrasco, que passou a se denominar Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde. A mudança expressou o reconhecimento da importância crescente da interdisciplinaridade. 

Além das dimensões sociais, econômicas e políticas já presentes, ganharam maior espaço perspectivas filosóficas, éticas, históricas e antropológicas, ampliando objetos de estudo, referenciais teóricos e abordagens metodológicas.

A abrasquiana, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante do Grupo de Trabalho que coordena o projeto de Memória dos 40 anos da Comissão de CSHS da Abrasco, Marta Verdi, destaca que essa transformação não aconteceu de maneira isolada – foi resultado de um processo de mobilização, reflexão e amadurecimento construído ao longo dos anos seguintes.

Em 2002, o seminário “Ciências Sociais e Humanas em Saúde: Desafios da Saúde e da Vida”, realizado no Rio de Janeiro, reuniu instituições e pesquisadores para aprofundar reflexões sobre a identidade, os desafios e as contribuições da área. Em 2003, durante o 7º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, em Brasília, o 2º Encontro de Ciências Sociais em Saúde ampliou a agenda temática, incorporando discussões sobre gênero, subjetividade, cultura, comunicação, violência, bioética, políticas de saúde e estudos sociais da ciência e tecnologia.

No ano seguinte, o Simpósio Nacional sobre Ciências Sociais e Humanas em Saúde, realizado no IMS/Uerj, deu continuidade à articulação e produziu subsídios para um momento que se tornaria emblemático nessa trajetória: o 3º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, realizado em Florianópolis, em 2005.

O encontro marcou a consolidação da integração das Ciências Humanas ao principal evento científico da área. Com cerca de 1,8 mil participantes inscritos e mais de 2 mil trabalhos apresentados, o Congresso ganhou nova escala e evidenciou a vitalidade de uma área que se afirmava cada vez mais como constitutiva da Saúde Coletiva.

Uma história contada pelos temas de cada tempo

A trajetória dos Congressos de CSHS também pode ser observada pelos temas escolhidos em cada edição. Em diferentes momentos, cidadania, justiça, ética, direito à saúde, emancipação, diversidade, decolonialidade, reparação, ambiente e território passaram pelo centro dos debates, revelando preocupações de seu tempo e, simultaneamente, questões estruturantes da Saúde Coletiva.

O 1º CSHS, realizado de 7 a 10 de novembro de 1995, em Curitiba (PR), teve como tema “Cidade e Saúde”.Quatro anos depois, o 2º CSHS, de 7 a 10 de dezembro de 1999, em São Paulo (SP), discutiu “Ciências Sociais e Saúde: tendências, objetos e abordagens”.

Em 2005, Florianópolis (SC) recebeu o 3º CSHS, com o tema “Desafios da fragilidade da vida na sociedade contemporânea”, em uma edição que se tornaria um marco da integração das Ciências Sociais e Humanas no Congresso.

O encontro seguinte levou o Congresso ao Nordeste. Realizado em Salvador (BA), em 2007, o 4º CSHS discutiu “Equidade, ética e direito à Saúde: desafios da Saúde Coletiva na mundialização”.

Em 2011, o Congresso retornou a São Paulo para sua quinta edição. O tema “O lugar das Ciências Sociais e Humanas no campo da Saúde Coletiva” colocou no centro da discussão a própria inserção e contribuição da área. O 6º CSHS, realizado em 2013, no Rio de Janeiro (RJ), propôs a “Circulação e diálogo entre saberes e práticas no campo da Saúde Coletiva”.

Três anos depois, o encontro chegou pela primeira vez ao Centro-Oeste. Em Cuiabá (MT), o 7º CSHS, em 2016, teve como tema “Pensamento crítico, emancipação e alteridade: agir crítico em saúde na (ad)diversidade”.

Em 2019, João Pessoa (PB) recebeu a oitava edição, orientada pelo tema “Igualdade nas diferenças: enfrentamentos na construção compartilhada do bem-viver e o SUS”. Após o período atravessado pela pandemia de Covid-19, o Congresso voltou a reunir presencialmente a comunidade da área em Recife (PE), no ano de 2023. O 9º CSHS colocou em debate “Emancipação e Saúde: decolonialidade, reparação e (re)construção crítica”.

Agora, em 2026, a história ganha um novo território. Pela primeira vez realizado em Manaus (AM), o 10º CSHS coloca em diálogo interculturalidade, ambiente e saúde: desafios do século XXI para uma vida em conexão com os territórios.

10º CSHS: novos territórios, atores e questões

Se os temas das nove primeiras edições registram transformações na agenda das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, Manaus representa também a continuidade da capacidade do Congresso de se renovar.

Para Keila Brito, vice-presidente da Abrasco, cada edição evidencia a força da área e sua participação no contínuo processo de construção e amadurecimento da Saúde Coletiva. O crescimento dos trabalhos recebidos e do número de participantes, aliado à diversidade de temas e atores.“Estes encontros têm sido espaços privilegiados para favorecer a criação de redes mais heterogêneas de pesquisa e colaboração, envolvendo atores de diferentes setores de atuação e das distintas regiões do país”, enunciou. 

Keila destaca ainda a importância da diversidade estimulada pelas chamadas dos congressos para favorecer encontros e redes construídas de maneira mais plural.

Essa perspectiva ganha novos sentidos em uma edição realizada no coração da Amazônia. Ao aproximar interculturalidade, ambiente e saúde e propor uma reflexão sobre a vida em conexão com os territórios, o 10º CSHS dialoga com questões urgentes, como a emergência climática, as desigualdades socioambientais, e a valorização dos conhecimentos e modos de vida dos povos e comunidades tradicionais.

De “Cidade e Saúde”, em 1995, à “Interculturalidade, ambiente e saúde”, em 2026, são mais de 30 anos de debates e encontros. Em setembro, essa trajetória segue sendo escrita em Manaus


Tema: Interculturalidade, Ambiente e Saúde: os desafios do século XXI para uma vida sustentável
Local: Manaus (AM)
Data: 16/09/2026 a 19/09/26

Sobre o CSHS

Organizado pela Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde da Abrasco (CCSH), surgiu em 1993, com a realização do I Encontro Brasileiro de Ciências Sociais em Saúde. O título de congresso foi dado somente na edição seguinte. Já no ano de 2005, passou por uma reestruturação com a inclusão das demais ciências humanas em sua abordagem temática. Ao longo dos anos, se consolidou como um espaço de produção de um pensamento crítico sobre as ciências sociais e humanas em saúde, sempre em busca de uma perspectiva transdisciplinar e inovadora.

Associe-se à ABRASCO

Ser um associado (a) Abrasco, ou Abrasquiano(a), é apoiar a Saúde Coletiva como área de conhecimento, mas também compartilhar dos princípios da saúde como processo social, da participação como radicalização democrática e da ampliação dos direitos dos cidadãos. São esses princípios da Saúde Coletiva que também inspiram a Reforma Sanitária e o Sistema Único de Saúde, o SUS.