
No dia 29 de julho de 2026, São Paulo sediou encontro da série de disseminação do 1º Plano Diretor da Área de PPGS da Abrasco, reunindo pesquisadores, docentes e gestores de diferentes instituições da cidade e do estado, incluindo participantes de Ribeirão Preto, da Santa Casa de Misericórdia e da USP.
Uma das questões que atravessou o debate foi por que a área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde foi a última a elaborar seu Plano Diretor. As hipóteses levantadas revelam tensões constitutivas do campo: a forte inserção de pesquisadores na gestão do SUS, a alternância entre academia e serviços e o histórico de escasso financiamento da área. A partir daí veio outra questão central: como garantir que a proximidade com governos não reduza a capacidade crítica da área? Os participantes ressaltaram a necessidade de reunificar o campo da Saúde Coletiva em torno do pensamento crítico, sem abrir mão da capacidade propositiva.
O encontro consolidou a compreensão de que o Plano Diretor deve ser compreendido como instrumento político. O documento precisa permanecer vivo, sendo revisitado e atualizado diante das mudanças de contexto. Os participantes defenderam que a Reforma Sanitária é mais ampla que o SUS e seus compromissos ético-políticos permanecem atuais, organizados em torno de três pilares: redução das desigualdades, fortalecimento da democracia e da República e valorização do trabalho.
O contexto político e social ocupou lugar central nas discussões. O avanço do conservadorismo e do neofascismo, a privatização crescente do SUS, as mudanças climáticas, a precarização do trabalho e o negacionismo científico foram apontados como desafios que o Plano Diretor precisa enfrentar. Os participantes defenderam que a área precisa disputar narrativas públicas em defesa do SUS e ampliar sua presença junto a movimentos sociais, conselhos de saúde, sindicatos, trabalhadores e comunidades. Foi levantada ainda a proposta de avaliação de um Dia Nacional em Defesa do SUS, com atividades públicas em todo o país.
Nos três eixos do Plano Diretor, as discussões apontaram caminhos concretos. No ensino, destacou-se a necessidade de aprofundar metodologias participativas e freireanas, revisar currículos, fortalecer a curricularização da extensão e aproximar estudantes, trabalhadores e comunidades. Na pesquisa, foram criticados o financiamento excessivamente individualizado e meritocrático e a distância entre produção científica e necessidades dos serviços. Os participantes propuseram a indução de editais para pesquisas em rede, a construção de grandes observatórios nacionais e o mapeamento da produção científica da área. Na articulação política e social, ficou claro que a extensão deve aproximar universidade e sociedade e fortalecer processos de escuta e participação capazes de produzir pactos em defesa do SUS.
O encontro produziu uma agenda paulista para o segundo semestre, com propostas de debates regionais, mobilização para o Congresso Brasileiro de PPGS em Curitiba em 2027, realização de uma Conferência Livre sobre trabalho em saúde, produção de dossiês temáticos e construção de agenda conjunta com a Associação Paulista de Saúde Pública. Para Tatiana Wargas, coordenadora da Comissão de PPGS da Abrasco, o acúmulo gerado por cada encontro tem um destino claro: “Cada um desses encontros regionais está produzindo um relatório com encaminhamentos e proposições. Estes relatórios vão subsidiar a gente na oficina de Manaus”, afirma, referindo-se à oficina prevista para setembro, no âmbito do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS).
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