NOTÍCIAS 

Entre desafios e esperança, nova geração de pesquisadores reafirma o papel da ciência na construção do SUS

Celebrado em 8 de julho, o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico convida à reflexão sobre a importância da produção de conhecimento para o desenvolvimento do país. Em um cenário marcado por transformações na comunicação científica, desafios de financiamento e pela necessidade permanente de valorização da pesquisa, a ciência brasileira segue produzindo evidências que orientam políticas públicas, fortalecem o Sistema Único de Saúde (SUS) e contribuem para a redução das desigualdades.

Para o presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, produzir conhecimento científico é parte essencial do compromisso da Saúde Coletiva com a transformação da realidade brasileira. “A Saúde Coletiva tem como compromisso inerente o enfrentamento das desigualdades e das iniquidades em saúde. Produzir conhecimento, fortalecer a formação de pesquisadores e promover a troca de experiências são caminhos para que possamos responder aos desafios do país e cumprir a missão mais importante da Saúde Coletiva: defender a vida e o direito à saúde”, afirma.

Uma ciência que cresce e dialoga com o mundo

Em editorial que marca os 30 anos da revista Ciência & Saúde Coletiva, a editora científica Cecília Minayo analisa o momento vivido pela produção científica brasileira. Segundo ela, mesmo diante das profundas transformações na comunicação e na divulgação científica, o Brasil mantém posição de destaque na produção internacional de conhecimento, amplia a colaboração entre pesquisadores de diferentes países e fortalece o acesso aberto às publicações.

Minayo destaca que, entre 2014 e 2023, as Ciências da Saúde responderam por 27% da produção científica brasileira indexada, consolidando-se como a principal área de pesquisa do país e registrando impacto de citações acima da média mundial. O país também se destaca entre as nações que mais desenvolvem pesquisas voltadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas, especialmente em temas relacionados à saúde, educação, redução da pobreza, equidade e preservação ambiental.

A ciência como ferramenta de transformação social

Por trás dos indicadores e das estatísticas estão pessoas que encontraram na ciência um caminho de transformação. É o caso de Luis Roberto da Silva, doutorando em Saúde Coletiva, cuja trajetória começou em 2018, durante a graduação na Universidade Federal de Pernambuco, no Centro Acadêmico de Vitória.

Primeiro integrante da família a estudar em uma universidade pública e o primeiro a ingressar em um doutorado, Luis afirma que sua experiência só foi possível graças à expansão do acesso ao ensino superior e às políticas de permanência estudantil.

“Ao longo da graduação, tive a oportunidade de escrever meu primeiro resumo para congresso, publicar meu primeiro artigo e atuar como bolsista de iniciação científica. Estudar em um campus interiorizado me mostrou a importância de lutarmos cada vez mais pela democratização do acesso às instituições de ensino superior, pelas políticas de permanência estudantil e por um financiamento adequado. Para mim, chegar à universidade era algo muito distante.”

Hoje, além da pesquisa de doutorado sobre gestão e acesso à cirurgia bariátrica no SUS em Pernambuco, ele participa de estudos sobre a formação e a atuação de sanitaristas graduados no Brasil e sobre a epidemiologia de doenças transmissíveis no estado. Em 2026, realizou um estágio de pesquisa na Universidade de Antióquia, na Colômbia, experiência que ampliou sua visão sobre a Saúde Coletiva na América Latina.

O futuro da ciência depende de investimento e valorização

Apesar dos avanços da ciência brasileira, seguir na carreira científica ainda representa um desafio para muitos jovens pesquisadores. Entre os principais obstáculos, Luis cita as dificuldades de financiamento, as incertezas sobre o futuro da carreira, a busca por direitos trabalhistas e previdenciários para estudantes de pós-graduação e a pressão pelo produtivismo acadêmico.

“Não podemos romantizar esse percurso difícil. É necessário lutar por uma ciência democrática, acessível, ética e devidamente valorizada, ainda mais em tempos de rápida disseminação de notícias falsas.”

Para ele, fortalecer a ciência brasileira passa pelo investimento em infraestrutura e insumos, pela formação de novas pesquisadoras e pesquisadores e pela ampliação das oportunidades de pesquisa em todas as regiões do país. Também significa produzir conhecimento comprometido com o enfrentamento das desigualdades sociais, das mudanças climáticas e da defesa do SUS.

As reflexões de Cecília Minayo, a trajetória de Luis Roberto da Silva e a visão da Abrasco convergem para um mesmo entendimento. A ciência é construída por pessoas, depende de investimento contínuo e tem papel estratégico na formulação de políticas públicas e na busca por soluções para os desafios sanitários, sociais, econômicos e ambientais do país. Valorizar quem pesquisa é fortalecer o SUS e ampliar a capacidade da sociedade de enfrentar as desigualdades com base em evidências científicas e compromisso social.

Como resume Luis, o maior reconhecimento para quem escolhe a carreira científica não está apenas no título conquistado, mas no impacto que o conhecimento produzido pode gerar na vida das pessoas.

“É bonito ser chamado de doutor, porém, é mais bonito saber que nosso trabalho ajudou a melhorar a qualidade de vida de alguém. Esse é o meu principal propósito no fazer científico.”

Associe-se à ABRASCO

Ser um associado (a) Abrasco, ou Abrasquiano(a), é apoiar a Saúde Coletiva como área de conhecimento, mas também compartilhar dos princípios da saúde como processo social, da participação como radicalização democrática e da ampliação dos direitos dos cidadãos. São esses princípios da Saúde Coletiva que também inspiram a Reforma Sanitária e o Sistema Único de Saúde, o SUS.

Acessar o conteúdo