
Os eleitores voltam às urnas neste domingo, 25 de outubro, para escolher entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para o cargo de presidente do Brasil. Na saúde, os dois planos de governo esbarram no mesmo limite: segundo levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) sobre os planos de governo, todas as propostas exigem recursos adicionais, e a necessidade de financiamento do SUS cresce mais rápido do que o arcabouço fiscal permite. A diferença está em como cada candidato lida com esse limite. O plano de Lula aposta na continuidade dos programas em curso, com 19 de suas 21 propostas ampliando políticas já existentes, e afirma ter restabelecido os pisos constitucionais da saúde. A equipe econômica de Flávio estuda corrigir os gastos com saúde apenas pela inflação. A campanha nega que seja proposta oficial, mas, por cálculo divulgado pelo instituto em 22 de outubro, a mudança tiraria do SUS, em média, R$ 30 bilhões por ano até 2036.
Vistos a partir dos princípios que orientam o SUS, como a universalidade, a integralidade e a equidade, no que diz respeito ao financiamento público, os planos se afastam em dois pontos: o tamanho do orçamento e o espaço reservado ao setor privado. São eles que vão definir como o país garante o que determina a Constituição: a saúde como direito de todos e dever do Estado. O plano de Lula afirma que o compromisso com o “fortalecimento do SUS público e universal é inalienável” e recorre à rede privada para reduzir filas. O de Flávio propõe integrar dados e serviços do SUS à rede privada e indicou para o Ministério da Saúde o oftalmologista Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, que já questionou o próprio princípio constitucional. Em junho, ele classificou como “extremamente desajustado” um modelo que parte da saúde como direito do cidadão e dever do Estado. Nesta semana, disse que a fala foi tirada de contexto e que a formulação “poderia ter sido mais precisa”.
O que propõe cada candidato
O plano de Lula organiza a saúde como continuidade e ampliação do que já está em curso. Na atenção especializada, aposta no Agora Tem Especialistas, com mais terceiros turnos, Carretas da Saúde, mutirões e parcerias com hospitais privados, que oferecem atendimentos em troca de créditos ou abatimento de dívidas. O acesso seria organizado por uma fila única digital, ordenada por risco clínico e apoiada em inteligência artificial, e pelo prontuário único da Rede Nacional de Dados em Saúde. Na atenção básica, promete expandir as equipes de saúde da família e manter o Mais Médicos em áreas vulneráveis. O plano prevê ainda levar a todo o país o atendimento domiciliar a idosos do PADI Brasil, consolidar o Supercentro de Telediagnóstico do câncer e continuar o fomento à produção nacional de insumos pelo Complexo Econômico-Industrial da Saúde.
A Estratégia Saúde da Família e o Mais Médicos, que o plano promete expandir e manter, cresceram no mandato atual. Segundo a Agenda Mais SUS, entre 2022 e 2025 a cobertura da estratégia subiu de 67,4% para 72,8%, e a participação do programa nas equipes passou de 25,8% para 45,8%. Na leitura do IEPS, o plano reúne fatores que facilitam a execução: 57% das propostas têm caminho definido, nenhuma depende de lei nova e só 14% exigem pactuação ampla entre União, estados e municípios.
O plano de Flávio distribui as propostas de saúde por diferentes capítulos e também reivindica um legado. Afirma que o governo Jair Bolsonaro iniciou a integração dos dados de saúde com o Conecte SUS e promete concluí-la com um prontuário eletrônico único, vinculado ao CPF, integrado ao Gov.br e interoperável entre as redes pública e privada. A Rede Nacional de Dados em Saúde foi de fato criada em 2020, mas sobre bases anteriores, como a estratégia e-Saúde e os programas e-SUS, dos governos Dilma e Temer. A inteligência artificial seria usada para encaixar o paciente na primeira vaga disponível. Diferentemente do plano de Lula, não propõe ordenar a fila por risco clínico, destaca o IEPS. O plano também prevê contratar serviços e exames da rede privada nos horários ociosos, corrigir a Tabela SUS, ampliar a Estratégia Saúde da Família, entregar remédios em domicílio, modernizar os hospitais universitários federais e criar uma Rede Nacional de Cuidado para idosos e pessoas com deficiência. No segundo turno, Flávio incorporou o compromisso de criar uma rede pública de telemedicina integrada ao SUS, em acordo com o ex-candidato Augusto Cury (Avante).
Na leitura do IEPS, 55% das 11 propostas têm caminho de execução, 45% correspondem a políticas já existentes e 18% dependem de mudança em lei federal. Nenhuma exige pactuação ampla entre os entes, mas 73% dependem da adesão de cada estado e município. A Rede Nacional de Cuidado, segundo o Instituto, não detalha financiamento nem pactuação.
Para o presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, a principal diferença entre os programas está no papel do setor privado, ainda que não signifique uma privatização institucionalizada. Ele afirma: “A grande diferença entre os dois planos é o lugar que o setor privado ocupará nos dois modelos. No plano do presidente Lula, o modelo dominante é o público, seguindo a tradição de construção do SUS. No do senador Flávio Bolsonaro, haveria uma inflexão em favor do setor privado, que funcionaria como referência teórica e prática para o nosso sistema de saúde. Dessa forma, o investimento em saúde se deslocaria na direção do setor privado”.
Rômulo também comparou a viabilidade das duas propostas: “O modelo proposto pelo presidente Lula já é conhecido e tem funcionado, até agora. O modelo sugerido pelo senador é desconhecido e improvável, já que ele não indicou as fontes de financiamento, nem exatamente o que pretende fazer se se tornar presidente. No seu discurso sobre o tema, há muita espuma e pouco conteúdo técnico”.
Financiamento, o limite comum
O levantamento do IEPS sobre os planos de governo, publicado em 30/09, aponta que todas as propostas de saúde de Lula e de Flávio exigem recursos adicionais, num cenário de espaço fiscal estreito. Projeção da Instituição Fiscal Independente (IFI), citada pelo instituto, mostra que a necessidade de financiamento do SUS cresce 3,9% ao ano, acima do limite de 2,5% do arcabouço fiscal, e supera o mínimo constitucional em R$ 29,7 bilhões já em 2030. Entre 2018 e 2023, o gasto público em saúde passou de 3,9% para 4,3% do PIB, abaixo do mínimo de 6% acordado pelos países das Américas na Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Os dois planos partem de premissas fiscais diferentes. O plano de Lula afirma que o governo restabeleceu os pisos constitucionais da saúde e da educação e promete manter o arcabouço fiscal, que, segundo o documento, controlou o crescimento das despesas sem prejudicar as políticas sociais. O texto também critica o peso das emendas parlamentares, que em 2026 somaram R$ 50 bilhões, cerca de um quinto dos recursos discricionários do Executivo. O plano de Flávio promete um tesouraço nos gastos públicos, com equilíbrio fiscal, reforma do Estado, combate à corrupção e menos impostos. Sobre saúde, reconhece que a lei de reajuste da Tabela SUS já existe, mas, “presa ao orçamento”, não enfrentou a defasagem.
A equipe econômica de Flávio estuda corrigir os gastos com saúde apenas pela inflação, no lugar do piso atual de 15% da receita corrente líquida. A campanha nega que seja proposta oficial, e a medida não consta do plano registrado. O coordenador da campanha, Rogério Marinho, classificou o Orçamento como “inexequível”, defendeu negociar um novo marco fiscal na transição e afirmou que o ajuste preservaria programas prioritários em saúde, educação e segurança. Lottenberg disse que o tema “não foi debatido” e já deu sinais diferentes sobre os recursos do sistema. Em 2019, chamou de equivocada a ideia de que falta dinheiro ao SUS. Neste ano, admitiu que “provavelmente existe um problema de subfinanciamento”.
Em um segundo estudo, divulgado em 22 de outubro, o IEPS calculou o efeito dessa troca. Pelo boletim, a correção apenas pela inflação, regra que vigorou de 2018 a 2022, congelaria o orçamento federal da saúde em termos reais. O SUS receberia, em média, R$ 30 bilhões a menos por ano até 2036, cerca da metade do que a União destina hoje à atenção primária. Num cenário de menor crescimento da receita, a regra preservaria mais recursos até 2029, mas a trajetória se inverte a partir de 2030, e a perda acumulada no período seria de R$ 65 bilhões.
Entidades da saúde já se manifestaram contra esse tipo de mudança. Em nota, a Frente pela Vida afirma que desvincular as receitas mínimas da saúde asfixia o direito garantido nos artigos 6º e 196 da Constituição. Para as entidades, saúde e educação são direitos fundamentais protegidos contra retrocessos.
O papel do setor privado na Saúde Coletiva
A mudança de rumo apontada por Rômulo, em favor do setor privado, aparece em propostas que partem de estruturas já existentes no SUS. É o caso do prontuário eletrônico. Desde julho de 2025, a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) é a plataforma oficial de interoperabilidade do SUS e o Ministério da Saúde prevê concluir até dezembro a adaptação dos sistemas ao CPF. Lottenberg reconheceu que a proposta é “utilizar algo que já vem sendo construído“, com o diferencial de acrescentar a integração com a rede privada. Segundo o IEPS, um desafio seria a falta de obrigação legal de operadoras e hospitais privados compartilharem dados com a regulação pública.
O mesmo vale para a contratação da rede privada, que já ocorre pelo Agora Tem Especialistas. Lottenberg chamou o programa de “medidas compensatórias”. O plano de Flávio também prevê organizar o cuidado de idosos e pessoas com deficiência em parcerias público-privadas com estados, municípios e organizações sociais. Ao tratar da saúde suplementar, o indicado foi além: “O que nós mais gostaríamos é que o setor privado pudesse crescer”.
Embora a rede privada concentre 13 vezes mais aparelhos de ressonância magnética que a pública, segundo o IEPS, apenas 22 hospitais privados haviam aderido ao Agora Tem Especialistas, sustentado sobretudo por hospitais públicos e da Ebserh. Os serviços privados também se concentram nas regiões metropolitanas. Em análise publicada no site da Abrasco, a Frente pela Vida admite a contratação diante da urgência das filas, mas defende investir na rede pública para reduzir a dependência do setor privado.
A expansão do setor privado não é neutra para o SUS. O 1º Plano Diretor de Política, Planejamento e Gestão em Saúde da Abrasco define a reversão da privatização e do subfinanciamento como objetivos centrais.
Na remuneração dos prestadores, a diferença é de modelo. O plano de Flávio promete corrigir a Tabela SUS, cuja revisão periódica já está prevista na Lei 14.820/2024. O governo atual paga por pacotes de cuidado, com valores acima da tabela, no Agora Tem Especialistas.
Quem escreveu os planos e quem comandaria o Ministério
O atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, coordenou a elaboração das propostas para a área no plano de Lula, segundo apuração do Futuro da Saúde. Infectologista com doutorado em Saúde Coletiva, ele comandou a pasta entre 2011 e 2014, no governo Dilma Rousseff, e voltou ao cargo em março de 2025, após a saída de Nísia Trindade. Cientista social, mestre em Ciência Política e doutora em Sociologia, Nísia é pesquisadora da Fiocruz desde 1987, onde dirigiu a Casa de Oswaldo Cruz, unidade dedicada às ciências sociais, à história e à saúde, e presidiu a Fundação entre 2017 e 2022.
O ex-ministro da Saúde do governo de Jair Bolsonaro (2021 e 2022), Marcelo Queiroga, participou da formulação do plano de Flávio. Queiroga é cardiologista e, de acordo com a CNN Brasil, seu currículo não listava experiência em gestão pública. Ao Futuro da Saúde, o médico afirmou que a coordenação e a validação das prioridades ficaram com Eduardo Cury e Rogério Marinho, coordenador-geral da campanha. Cury é engenheiro industrial e Marinho é economista e foi ministro do Desenvolvimento Regional no governo Jair Bolsonaro. De acordo com o portal, a trajetória de nenhum dos dois se concentra na saúde.
Lula não anunciou nomes para um eventual quarto mandato, apesar de ter Padilha disponível para a continuidade no cargo, segundo a CNN Brasil.
Durante sabatina da TV Globo, o médico Claudio Lottenberg foi anunciado por Flávio como seu ministro da Saúde. Oftalmologista, Lottenberg presidiu o Hospital Israelita Albert Einstein e está à frente do Instituto Coalizão Saúde. Ele também foi secretário municipal de Saúde de São Paulo em 2005, na gestão José Serra e está licenciado da presidência do Conselho Deliberativo do Einstein. Segundo seu currículo Lattes, tem formação na oftalmologia, com residência, mestrado e doutorado na especialidade. Na área de gestão, aparecem cursos de curta duração, como finanças para executivos no Ibmec e no Insper. Lottenberg também presidiu a Amil Saúde.
O direito à saúde em questão
Um vídeo que circulou nas redes sociais na última semana antes do pleito, divulgado pela Revista Fórum, mostra Lottenberg questionando o modo como a Constituição estabelece o direito à saúde. A declaração aconteceu em 8 de junho de 2026, em encontro interno de lideranças do Einstein. Na ocasião, ele classificou como “extremamente desajustado” um modelo de saúde “que parte de um princípio constitucional que coloca a saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado”. Ele disse que a falta de autocuidado em saúde faz a sociedade pagar a conta. À Folha de S.Paulo, Lottenberg afirmou que a declaração foi tirada de contexto.
A responsabilidade individual pelo cuidado, no entanto, é tema recorrente em suas falas públicas. Em entrevista no início do ano, disse que a saúde “deveria ser um dever do cidadão”. Em outubro, à Folha, defendeu “um olhar mais crítico sobre a capacidade contributiva de cada cidadão”.
A Abrasco já alertou para o risco dessa leitura. Em nota sobre o julgamento do rol de procedimentos da ANS no STJ, a associação classificou como extremamente preocupante equiparar o direito à saúde ao pagamento individualizado, uma visão que naturaliza um sistema dividido entre quem pode pagar e quem depende do SUS.
Desde 1988, o artigo 196 da Constituição garante a todos acesso universal e igualitário à saúde. É essa garantia que dá a medida do que está em disputa no domingo.


