
Manaus recebeu, nesta terça-feira (15), o primeiro dia de pré-congresso do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), sob o tema “Interculturalidade, Ambiente e Saúde: os desafios do século XXI para uma vida em conexão com os territórios”. O calor do dia não desanimou as 504 pessoas que já se credenciaram no evento, que contou com 114 monitores em atuação. Espera-se que mais de 2 mil pessoas compareçam nos próximos dias do congresso, que segue até 19/09.
Além do credenciamento e das 40 atividades realizadas, participantes também puderam visitar o stand da Abrasco e de parceiros, usufruir em espaços de descanso, descompressão e acolhimento, visitar a Abrasco Livros e a feira de produtos artesanais que estão ocupando os prédios da UFAM.
A oficina “Atenção Primária à Saúde, Territórios e Crise Climática” (OF06) foi iniciada com uma mesa redonda sobre estudos, evidências e iniciativas em diálogo com os territórios amazônicos e uma dinâmica de discussão em grupos ao longo da tarde. Para Ligia Giovanella, uma das coordenadoras da atividade, a mesa esteve bem ajustada aos temas centrais do congresso. A diversidade e a complementaridade entre as pesquisas reunidas ali reforçaram, segundo ela, a expectativa de que seja possível formar uma rede de pesquisa em APS específica para o território da Amazônia Legal. Ligia disse ter ficado muito satisfeita com a qualidade do conhecimento já produzido sobre atenção primária ali, incluindo iniciativas voltadas à equidade no atendimento a populações ribeirinhas, quilombolas e rurais. A oficina continua no Auditório Hall da Biblioteca Setorial Sul, nesta quarta-feira (16) pela manhã, com discussão sobre a viabilidade de redes regionais de pesquisa em APS.
No primeiro dia do minicurso “Saúde Digital como Objeto e Campo” (MC17), com um grupo pequeno e engajado de participantes, o coordenador Naomar de Almeida Filho propôs pensar a saúde digital além do senso comum tecnológico, que inclui robótica e telessaúde, mas que também atravessa megadados, diagnóstico por algoritmo e até novas formas de existência criadas pelo digital, como avatares e identidades digitais. O tema tem sido foco na trajetória do professor: em julho, na 78ª Reunião Anual da SBPC, Naomar já havia defendido a necessidade de uma teoria crítica da saúde digital. O professor, empolgado pela qualidade das conversas, finalizou a reunião perguntando à turma se a saúde digital está se constituindo como um campo próprio, com base no conceito de Bourdieu. A resposta ficou em aberto e a segunda parte do minicurso ocorrerá nesta quarta-feira (16) à tarde, no Auditório Vitória Régia, no CCA.
Já a oficina “Letramento de Gênero e Sexualidade para a Produção de Cuidado Sensível com a População LGBTI+” (OF03), conduzida por Laura Cecilia López, vice-coordenadora do GT Saúde da População LGBTI+, abriu um espaço de diálogo e aprendizado para todas as pessoas presentes. A manhã focou nas reflexões sobre os conceitos que compõem a sigla LGBTQIA+, diferenciando dimensões como orientação sexual, identidade de gênero e variabilidade genética no caso de pessoas intersexo. Esta foi uma oportunidade para que pessoas que estão e não estão na sigla pudessem compreender como essas dimensões atravessam suas vidas de formas diferentes, mas sempre presentes. Entre as atividades da tarde, o grupo assistiu a vídeos sobre Xica Manicongo, mulher trans travesti escravizada no Brasil colonial e um dos primeiros registros de uma pessoa trans no país, usados para debater direitos de pessoas trans a partir de sua história e desmistificar a ideia de que a discussão sobre identidade de gênero é um fenômeno recente. Além disso, discutiu a dimensão política do acesso a direitos, incluindo o debate sobre ações afirmativas para pessoas trans nas universidades: a lei de cotas não contempla essa população, mas as instituições têm autonomia para criar programas próprios de ação afirmativa.
Indígenas e quilombolas articulam redes e agendas no pré-congresso
A Reunião Indígenas Pesquisadores na Saúde Coletiva (R05), fechada a convidados, aconteceu com apoio do GT Saúde Indígena da Abrasco e organização do Coletivo Vozes Indígenas na Saúde Coletiva, ligado a um projeto da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) que desde 2019 apoia pesquisadores indígenas e já lançou duas coletâneas de livros, em 2022 e 2025. Segundo Ana Lúcia Pontes, membra do GT e pesquisadora da Fiocruz, a reunião se soma a uma rede que “tem se ampliado a cada ano”, juntando pesquisadoras e pesquisadores indígenas para discutir suas trajetórias na academia. Segundo relato de Imaculada Tukana, comunicadora da Rede Wayuri, a Rede de Comunicadores Indígenas do Rio Negro, as conversas passaram pela “discussão sobre a saúde coletiva dos povos indígenas, as demandas que os pesquisadores dos territórios têm, o reconhecimento das conquistas que já tiveram e o que ainda é necessário conquistar”. Entre essas conquistas recentes está a criação, em agosto, de duas categorias de associação da Abrasco voltadas especificamente a pessoas indígenas, que ocorreu com a articulação do Coletivo de Pesquisadores e Pesquisadoras Indígenas da Abrasco. A expectativa da organização é que cerca de 100 indígenas passem pelo 10º CSHS até o fim do congresso.
Já o Encontro de Indígenas Nutricionistas (E10) apresentou os primeiros resultados do mapeamento nacional “Perfil dos Indígenas Nutricionistas”: apenas 73 profissionais indígenas foram validados em todo o país, e para 45,21% deles a formação em Nutrição foi “adequada mas insuficiente” ou “inadequada e insuficiente” para lidar com a realidade dos povos indígenas. Segundo a coordenadora Ligia Amparo-Santos, esses dados inspiram a necessidade de integração de um grupo para pautar as questões indígenas na formação e exercício da profissão. O grupo saiu da atividade articulando uma estratégia de auto-organização e propostas a serem levadas à SESAI e ao Conselho Federal de Nutricionistas. As nutricionistas presentes “se sentiram bem motivadas para participar dos eventos, para fazer essa articulação”, afirmou Ligia.
O fórum “AquilombaSUS: Articulando Experiências Antirracistas em Saúde” (FR01) refletiu coletivamente sobre a relação das cosmovisões e as lutas territoriais de comunidades negras e indígenas com o campo da Saúde Coletiva. Kahamy Ãdetta, da Comunidade Kilombola Morada da Paz, Território de Mãe Preta Nação Muzunguê (RS), e uma das coordenadoras do fórum, destacou que não é possível generalizar as comunidades quilombolas: cada território tem estratégias próprias de cuidado e sobrevivência, e mesmo comunidades quilombolas rurais de uma mesma região podem ter processos de autorreconhecimento completamente diferentes entre si. O coordenador Tadeu de Paula (UFRGS), usando a imagem da feijoada, um prato criado a partir das sobras que eram destinadas às pessoas escravizadas e hoje celebrado por todos, alertou para o risco de uma relação de consumo com a cultura negra que não se converte em enfrentamento efetivo ao racismo. Rachel Gouveia (UFRJ), outra coordenadora do fórum, reforçou que esta não é uma luta da população negra sozinha e que seu sucesso depende de alianças. A discussão avançou também para dimensões simbólicas do cuidado, a exemplo da da gira como tecnologia de acolhimento, e para o desafio de levar essas referências culturais para dentro de espaços institucionais, como salas de aula e serviços de saúde, sem que elas sejam reduzidas à religiosidade. Para eles, trata-se de um tipo de inteligência que opera em registros sensíveis diferentes dos da lógica racional dominante e que se baseia no que se pode produzir de transformação a partir da relação.


















