No segundo dia do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (3º SIBSA), realizado nesta quarta-feira (27), cerca de 500 pessoas participaram das atividades que movimentaram o campus principal da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá (MT). Debates sobre justiça socioambiental, crise climática, defesa da vida e os desafios contemporâneos da Saúde Coletiva marcaram a programação, reunindo pesquisadores, estudantes, movimentos sociais, representantes de povos e comunidades tradicionais e participantes de diversas regiões do país.
A programação incluiu conferências, mesas-redondas, rodas de saberes, apresentações de trabalhos científicos, atividades culturais e encontros entre redes e movimentos sociais. Os debates dialogaram diretamente com os desafios enfrentados nos territórios e com a necessidade de fortalecer políticas públicas comprometidas com a proteção da vida, da biodiversidade e dos direitos humanos.
A Grande Roda de Abertura contou com a participação do líder indígena, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ailton Krenak; da ativista, marisqueira e primeira vereadora quilombola eleita em Salvador (BA), Eliete Paraguassu; e do pesquisador e professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Naomar de Almeida Filho. Os convidados debateram o tema “Conflitos e resistências territoriais dos povos e comunidades originários, tradicionais e de periferias no contexto do colapso ecológico e climático”. A mediação foi conduzida pelo presidente do simpósio, Guilherme Franco Netto.
Entre as atividades do dia, foi realizado um debate sobre os riscos da pulverização de agrotóxicos em áreas próximas a escolas e os impactos para crianças, professores e trabalhadores da educação. O pesquisador Wanderlei Pignati coordenou a atividade, que contou com a participação do representante do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público de Mato Grosso (SINTEP-MT), Henrique Lopes, e da integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra de Mato Grosso (MST-MT), Itelvina Masioli.
A pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, Aline Gurgel, também participou dos debates e alertou para o uso da ciência como instrumento de legitimação de supostos níveis seguros para o uso de agrotóxicos.“A gente subverte a ciência e seus sentidos em favor dos interesses que causam contaminação e poluição. Por isso, precisamos produzir uma ciência contra-hegemônica, uma toxicologia e uma epidemiologia críticas”, afirmou.
O encerramento do dia ficou por conta da Grande Roda “O capital e os processos de determinação socioambiental da saúde e o papel da Saúde Coletiva no enfrentamento ao colapso ambiental”. A mediação foi realizada pelo pesquisador, integrante do GT Saúde e Ambiente da Abrasco e membro do Coletivo Científico e de Saberes do SIBSA, Allan de Campos. Participaram da atividade a pesquisadora e professora titular da Universidade Federal Fluminense (UFF), Lenaura Lobato; o autor e pesquisador Rob Wallace; e a coordenadora do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), Marta de Freitas.
Primeira painelista da mesa, Lenaura Lobato destacou as contribuições do movimento da Reforma Sanitária, da 8ª Conferência Nacional de Saúde e do campo da Saúde Coletiva. A pesquisadora ressaltou que a articulação entre saúde e ambiente pode contribuir para a formulação de políticas públicas e propostas concretas de enfrentamento aos problemas sociais.
“A área de ambiente e saúde tem uma contribuição enorme a dar, exatamente porque, para ser crítica suficiente e criar alternativas e soluções factíveis e libertadoras para a população, não pode prescindir do sentido da determinação social da saúde”, detalhou.
Na sequência, Marta de Freitas apresentou a atuação do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), que luta em defesa das populações afetadas pelos impactos da mineração no Brasil e defende a participação da sociedade civil nos debates sobre exploração mineral. Marta também mencionou os impactos da crise climática em populações vulnerabilizadas e criticou os esforços considerados insuficientes para uma efetiva transição energética.
“Falam de transição energética, mas será que o Norte global vai parar de usar energia fóssil?… Será que não querem trazer para a América Latina tudo que polui a Europa e os Estados Unidos? Não se trata de transição energética, mas de transação energética, com a criação de áreas de sacrifício para a exploração mineral”, explicou.
Encerrando a Grande Roda, o autor e pesquisador estadunidense Rob Wallace apresentou reflexões sobre os impactos do agronegócio no meio ambiente, incluindo o aumento exponencial de rebanhos bovinos e outras criações animais, além do uso indiscriminado de agrotóxicos e substâncias nocivas. Wallace retomou discussões presentes em seu livro Pandemia e agronegócio: doenças infecciosas, capitalismo e ciência (2020), no qual analisa a relação entre a intensificação agropecuária e o surgimento de novas epidemias.
“A industrialização capitalista transformou a terra e o trabalho em mercadorias, tornando o planeta Terra em planeta fazenda. Podemos ver esse desequilíbrio da biomassa dos seres vivos. Há uma explosão na produção global de carne e isso foi impulsionado pela integração vertical das empresas do setor. Há uma diminuição no número de fazendas, mas um aumento na produção de carne”, declarou.
O 3º SIBSA acontece até o dia 29 de maio e reúne conferências, mesas-redondas, rodas de saberes, apresentações de trabalhos científicos, atividades culturais e encontros entre redes e movimentos sociais. A programação busca fortalecer o debate sobre justiça socioambiental, defesa da vida e políticas públicas voltadas à proteção dos territórios, da biodiversidade e dos direitos humanos.

O 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA), será realizado de 27 a 29 de maio de 2026, com pré-congresso no dia 26 de maio. O evento acontece na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá e reunirá pesquisadoras e pesquisadores, estudantes, profissionais da saúde, movimentos sociais e lideranças comunitárias para debater as relações entre saúde, ambiente e a defesa da vida.
Com o tema “A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico: soberania, justiça e conhecimento para a transformação”, o simpósio propõe um diálogo interdisciplinar e intercultural entre diferentes saberes.
Saiba mais: sibsa.org.br/









