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“O Brasil não pode se transformar numa república do agronegócio”: Grande Roda 3 debate venenos, territórios e resistência no 3º SIBSA

A manhã do segundo dia do SIBSA (28) começou no Teatro Universitário da UFMT com a Mística do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, realizada por cerca de 30 jovens integrantes do movimento social, que falaram palavras de ordem contra o imperialismo e em favor da luta pela terra, pela autonomia dos povos e da vida. Em seguida, foi iniciada 3ª Grande Roda, com o tema “Venenos estão na mesa, água, terra, ar e corpos-territórios: ameaças do agro e mineronegócio aos biomas brasileiros”. Na sequência, os participantes se dividiram para integrar as atividades de sete Rodas Temáticas e das três tendas do evento

A Grande Roda reuniu o abrasquiano Wanderlei Pignati, pesquisador e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e coordenador da Comissão Executiva Local do 3º SIBSA; Leomar Daroncho, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT), com atuação em direito do trabalho, agrotóxicos e barragens; e Lina Cunha, integrante da Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA), assessora técnica do Coletivo de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Maranhão, com 28 anos de atuação junto a movimentos sociais e comunidades tradicionais. A mediação ficou a cargo de Alexandre Pessoa Dias, integrante do Coletivo Científico e de Saberes do SIBSA e coordenador do GT Saúde e Ambiente da Abrasco.

Ao abrir os trabalhos, Alexandre Pessoa marcou uma distinção conceitual que atravessou toda a mesa: “Não estamos falando de crise ecológica. No SIBSA, assumimos que estamos diante do colapso ecológico e isso tem consequências políticas, reflexos teóricos e conceituais: não é mais possível trabalharmos com Saúde Coletiva da forma como sempre trabalhamos”. “Qual a estratégia para enfrentar o mito do uso seguro dos agrotóxicos?”, provocou.

Wanderlei Pignati destacou a presença expressiva de movimentos sociais entre os participantes do Simpósio, algo incomum em eventos acadêmicos, e avaliou como uma conquista a escolha da organização de priorizar essa composição. O professor da UFMT apresentou dados sobre o volume de venenos usados na agricultura brasileira. Somando a produção de soja, milho, cana-de-açúcar, algodão e pastagens, o Brasil aplica cerca de 1 bilhão de litros de agrotóxico por safra. “Cada litro de produto comercial é diluído em 100 litros de água. São 100 bilhões de litros de calda tóxica colocados por ano em cima dessa produção”, apontou sobre a contaminação química dos alimentos, mas do solo, das águas, do ar e dos corpos.

Sobre o peso econômico do setor, Pignati apontou que o agronegócio representa 35% do PIB nacional, chegando a proporções ainda maiores nos municípios do interior de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, além de denunciar a isenção fiscal. “Todo produto de exportação do agro, da mineração e do petróleo não paga imposto de exportação nenhum. Saem daqui cem carretas de soja, chegam setenta no Porto de Santos. Quem carrega esse peso somos nós, o dinheiro público”. Encerrou, categórico: “O Brasil não pode se transformar numa república do agronegócio”.

Neste tema, o procurador do MPT Leomar Daroncho apresentou números do último censo agropecuário que contrariam o argumento da geração de empregos. O levantamento de 2017 mostra que há mais áreas e propriedades dedicadas ao agronegócio utilizando agrotóxicos, enquanto caiu o número de proprietários e sumiram 1,5 milhão de postos de trabalho no setor. Entre os que ainda trabalham, não há como fazer o uso seguro. “A roupa designada como EPI pelos fabricantes é um macacão emborrachado, bota, perneira, viseira, luva, máscara. Como faz para vestir isso a 42 graus? Simplesmente não funciona. É um mito de que seja possível trabalhar com segurança”.

Sobre a estratégia judicial, Daroncho informou que o MPT protocolou, na semana anterior ao SIBSA, uma ação pedindo o banimento do glifosato, após a despublicação de um artigo científico que sustentava sua manutenção no mercado. Mas, para ele, o poder judiciário ainda é muito limitado e precisa de mobilização e informação para as pessoas que trabalham nas zonas rurais. “Há tentativas de mudar o nome ‘agrotóxico’ para algo de baixa identificação. O nome mais adequado é o que está na bula: veneno”, disse. E acrescentou: “Precisamos parar de usar a expressão ‘agro’ porque assim omitimos a parte que é um negócio”. Ele encerrou com uma referência à cientista que dá nome a uma das tendas do evento: “Rachel Carson já apresentou isso em 1962, a relevância da informação. Só estamos espalhados, mas já começamos a mudar o mundo. Esse evento é uma forma de nos reconhecermos”.

Após saudar os encantados das águas, da terra e das florestas que “conversam muito bem com os povos e comunidades tradicionais”, Lina Cunha apresentou o levantamento mais recente da RAMA no Maranhão. Nos quatro primeiros meses de 2026, foram registradas 239 ocorrências de pulverização aérea de agrotóxico em 200 comunidades e 31 municípios maranhenses: uma média de dois ataques por dia, sendo 36 localidades atingidas repetidamente. “Estamos falando de famílias intoxicadas diversas vezes, de plantações destruídas, de fontes de água contaminadas, de crianças adoecendo e de idosos sofrendo sintomas severos de envenenamento”, relatou. Lina também apresentou um balanço de resistência: a RAMA conseguiu a aprovação de 14 leis municipais contra a pulverização aérea no Maranhão, das quais 12 permanecem em vigor. A rede construiu protocolos de denúncia, assessoria jurídica direta às comunidades, parcerias com universidades, institutos federais e com a Fiocruz Ceará e integra a presidência do Fórum Estadual de Combate aos Agrotóxicos.

“Quando uma palmeira de babaçu cai, não cai apenas uma árvore, cai parte da história, da cultura e da sobrevivência de um povo e, principalmente, cai o sonho das mulheres quebradeiras de coco babaçu, que são as mais dedicadas defensoras dessa palmeira. Quando um rio é contaminado, não morre apenas um peixe, morre também a relação ancestral construída com aqueles territórios. O que vivemos hoje é um ecocídio e um genocídio lento. Enquanto o negócio mostra o PIB, nós mostramos os povos adoecidos. Enquanto a mineração exibe o ouro, nós mostramos os rios envenenados. Defender a vida hoje significa proteger a agroecologia e o direito dos povos de continuar existindo”, encerrou Lina Cunha.


Denúncias e anúncios: comunidades falam do colapso e de soluções

Na sequência da Grande Roda 3, logo após o lanche coletivo oferecido pelo MST, os participantes se distribuíram pelas Rodas Temáticas simultâneas nos diferentes auditórios e salas do campus da UFMT. A Roda “Vidas em risco: racismo ambiental e a expansão das zonas de sacrifício”, coordenada pelo pesquisador da Fiocruz Hermano Castro, reuniu Eliete Paraguassu, que deu continuidade à denúncia iniciada na Grande Roda de abertura, ao lado de Leonidia Insfran de Oliveira Carvalho e da liderança indígena Luena Pataxó, da Terra Indígena Coroa Vermelha (BA).

A Roda “Vigilância Popular e Cuidado frente ao Colapso Ecológico”, coordenada por Soraya Vanini Tupinambá, do Instituto Terramar (CE), reuniu pesquisadores populares de diferentes regiões do país. Graciela Stornini, agricultora agroecológica do Assentamento Nova Santa Rita de Cássia II (RS) falou a partir das enchentes de 2024 e da deriva de agrotóxicos de 2020. Teka Potiguara, liderança do Movimento Potiguara Tapuia (CE), descreveu como a aldeia fechou suas fronteiras durante a pandemia por dois anos sem registrar um único caso de COVID-19. “É bom ter sempre a da ancestralidade, a terra e a ciência”. João Paulo Alves da Silva, do movimento Justiça nos Trilhos (MA), apresentou imagens do território de Piquiá de Baixo com os indicadores visuais que a comunidade usa para documentar os impactos da mineração: folhas cobertas de fuligem e águas barrentas e avermelhadas. O abrasquiano e pesquisador da Fiocruz Ceará, Fernando Carneiro, situou a vigilância popular numa tradição que percorre a América Latina e destacou seu potencial emancipatório. “Ela não busca ocupar o lugar da vigilância institucional. Os povos querem direito à saúde e ambiente e, para isso, fazem denúncia e anúncio por meio da vigilância popular. A agroecologia é um anúncio, a resistência à COVID é outro. Estamos nos formando para isso”, disse. Vanira Matos Pessoa, pesquisadora da Fiocruz Ceará debateu o desafio de integrar vigilância e cuidado num mundo que opera pela fragmentação.

A saúde de trabalhadores expostos às consequências da crise climática pautou a Roda “Saúde do trabalhador e da trabalhadora nas emergências climáticas”, com participação de representantes do MPT, do Ministério da Saúde e da Fiocruz, coordenada por Márcia Kamei (MPT/SC). Já a roda “Quando o território fala: experiências vivas em saúde e ambiente” colocou em diálogo vozes indígenas e quilombolas de Mato Grosso, Acre e da Aliança Científica Antirracista, com coordenação de Fran Paula, do CONAQ. Marizelha Lopes, que discursou na abertura do Simpósio, participou da Roda “Territórios de vida: interseccionalidade, tecnologias sociais e caminhos para territórios saudáveis e sustentáveis”, mediada pela Fiocruz Brasília. Completaram a programação da manhã a Roda “Conflitos socioambientais e desafios na Bacia do Paraguai”, com foco no Pantanal e nas comunidades pantaneiras tradicionais, e a Roda “Impacto ambiental na carga de doenças cardiovasculares”, coordenada pela UFMT com participação da USP.

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