
Nos dias 2 e 3 de julho de 2026, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) sediou o 1º Encontro de Docentes, Pesquisadores(as) e Experiências Formativas da Área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde da Região Sul, parte da série de encontros regionais de disseminação do 1º Plano Diretor da Área de PPGS da Abrasco. A iniciativa reuniu representantes de programas de pós-graduação, cursos de graduação e experiências formativas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. Ao longo dos dois dias, consolidou-se a disposição de construir uma articulação regional permanente entre instituições, saberes, territórios e práticas.
O encontro foi desenhado para que as experiências na graduação e na pós-graduação dialogassem com o Plano Diretor, mobilizando a região para pensar o que o documento pode potencializar de conversas e iniciativas. Para Tatiana Wargas, coordenadora da Comissão de PPGS da Abrasco, o que torna o resultado singular é o retorno que cada encontro produz: “Isso volta para a comissão e alimenta a implementação das ações que o plano se propõe.”
Os debates evidenciaram os impactos da privatização, da financeirização e da precarização sobre a gestão e a produção científica, e reafirmaram a necessidade de ampliar a presença da Saúde Coletiva no debate público e nas políticas.
A Associação Brasileira de Bacharéis em Saúde Coletiva (ABASC) apresentou o momento de retomada da entidade, impulsionado pela regulamentação da profissão de sanitarista e pelo início do registro profissional pelo SIRP-MS. Com cerca de quatro mil bacharéis formados no Brasil, a ABASC debateu os desafios concretos da inserção profissional. A entidade anunciou ainda a construção de um painel para acompanhamento das trajetórias dos egressos, voltado a subsidiar estratégias de valorização da profissão e ampliação da atuação dos sanitaristas no SUS.
Hugo Spinelli, do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Nacional de Lanús (Argentina), participou como interlocutor convidado. Em sua aula aberta, Spinelli questionou os pressupostos que organizam as instituições sociais, defendendo que universidades e serviços de saúde continuam sendo geridos a partir de categorias criadas para fábricas, não para relações humanas. Propôs recuperar a centralidade do presente e da ação, reconhecer os territórios como produtores legítimos de conhecimento e tratar o conflito não como falha da gestão, mas como dimensão constitutiva da vida coletiva. Essas ideias atravessaram as discussões sobre formação, pesquisa e o papel da universidade pública ao longo dos dois dias.
O encontro resultou na Carta de Porto Alegre, documento coletivo que expressa o compromisso de dar continuidade ao movimento iniciado. A carta afirma que os desafios contemporâneos, da privatização da saúde às emergências climáticas, não podem ser enfrentados apenas com mais produção científica ou qualificação técnica. Exigem conhecimentos situados, construídos em diálogo permanente com os territórios, os serviços e os movimentos sociais. Nesse sentido, a Região Sul é afirmada no documento não como identidade regional fechada, mas como território de fronteiras, migrações, povos indígenas, comunidades quilombolas e populações tradicionais profundamente marcadas pelas mudanças climáticas.
Os encaminhamentos aprovados ao final incluem a realização de encontros periódicos, o desenvolvimento de disciplinas interinstitucionais, a mobilidade docente e discente entre os programas e a preparação de atividades conjuntas para o Congresso Brasileiro de PPGS em Curitiba, em 2027. O relatório produzido pelo encontro integra o conjunto de documentos que vai subsidiar a oficina de PPGS prevista para setembro, em Manaus, no âmbito do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS). O II Encontro da Região Sul já está em planejamento.
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