
18/09/2026 – Manaus (AM): segundo Grande Debate do 10º CSHS. Foto: Roan Nascimento 
18/09/2026 – Manaus (AM): segundo Grande Debate do 10º CSHS. Foto: Roan Nascimento 
18/09/2026 – Manaus (AM): segundo Grande Debate do 10º CSHS. Foto: Roan Nascimento 
18/09/2026 – Manaus (AM): segundo Grande Debate do 10º CSHS. Foto: Roan Nascimento 
18/09/2026 – Manaus (AM): segundo Grande Debate do 10º CSHS. Foto: Roan Nascimento
Territórios, diferentes formas de produzir conhecimento e os desafios para uma Saúde Coletiva capaz de reconhecer a pluralidade das experiências e modos de vida estiveram no centro do segundo Grande Debate do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), realizado na tarde desta sexta-feira (19), no Teatro Eulálio Chaves, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em Manaus (AM). A atividade reuniu reflexões sobre interculturalidade, interseccionalidade, desigualdades e os caminhos para práticas de cuidado construídas a partir dos territórios e das populações.
Coordenado pela vice-presidente da Abrasco Keila Brito, o debate contou com a participação de Cecília Minayo, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-presidente da Abrasco; Putira Sacuena, da Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai/MS); e Rachel Gouveia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Na abertura, Keila Brito convidou o público a refletir sobre a produção do conhecimento em saúde. Para a vice-presidente da Abrasco, pensar outros caminhos para a Saúde Coletiva exige reconhecer diferentes territórios, vivências e projetos de mundo. “Hoje vamos ouvir de quem constrói, defende e transforma práticas cotidianas de cuidado, pois, como propõe este encontro, a Saúde Coletiva precisa se tornar menos segura de seus próprios vocabulários […] para que outras formas de existência coletiva possam produzir cuidado”, afirmou.
Cecília Minayo propôs uma leitura das grandes transformações sociais. A pesquisadora destacou, entre esses processos, as mudanças ambientais, as transformações científicas e tecnológicas — especialmente no campo da comunicação e da informação — e o feminismo.
Ao percorrer diferentes momentos históricos, Minayo relacionou essas transformações às mudanças nas formas de organização social, nas relações de trabalho, na construção das identidades e na maneira como indivíduos e coletividades compreendem seu lugar no mundo. Para a pesquisadora, acontecimentos globais atravessam as realidades nacionais, comunitárias e também as experiências individuais.
Minayo também chamou atenção para a desigualdade como questão estrutural da sociedade brasileira e defendeu a cidadania e a conquista de direitos como caminhos para o enfrentamento da violência. “O contrário da violência é a cidadania, é a capacidade de nós conquistarmos os nossos direitos”, afirmou.
Ao final, a pesquisadora destacou o papel das novas gerações na construção de uma sociedade capaz de acolher diferentes formas de existência. Para Minayo, essa transformação depende tanto da ação coletiva quanto da participação de cada pessoa.
Putira Sacuena partiu do próprio tema do Congresso para provocar uma reflexão sobre o lugar ocupado pela interculturalidade no campo da saúde. Segundo ela, saúde, ambiente, território e interculturalidade não podem ser tratados como dimensões separadas, uma vez que as condições de saúde são produzidas nos territórios e nas relações estabelecidas com eles.
A pesquisadora e gestora destacou que a interculturalidade ganhou espaço inicialmente no campo da educação e que sua incorporação à saúde ainda exige avanços. Nesse processo, questionou também a maneira como a Amazônia costuma ser representada. Em vez de ser compreendida apenas a partir das distâncias e dificuldades de acesso, defendeu que a região seja reconhecida pelos conhecimentos e soluções que produz.
Ao abordar sua trajetória acadêmica, Putira destacou as diferenças entre as formas indígenas e acadêmicas de apresentação e reconhecimento. Enquanto, entre os povos indígenas, a identidade está diretamente vinculada ao povo e ao território de origem, na universidade, observou, a titulação frequentemente aparece em primeiro plano.
A partir de sua formação em Farmacologia, ela lembrou os conhecimentos transmitidos pela avó sobre plantas, rios, períodos de plantio e colheita e diferentes formas de utilização de espécies medicinais. “A minha avó foi a maior farmacologista”, afirmou, ao defender o reconhecimento dos conhecimentos indígenas como ciência.
Para Putira, avançar na interculturalidade em saúde exige superar a separação entre a medicina ocidental e as medicinas indígenas. O desafio é construir práticas nas quais diferentes sistemas de conhecimento possam atuar conjuntamente, de acordo com as necessidades dos territórios e das pessoas.
“A gente sempre discute medicina ocidental ou medicinas indígenas. A gente não entende que a interculturalidade são os dois juntos”, destacou. Nesse sentido, Putira defendeu que o território não seja compreendido apenas como ponto de partida das políticas públicas, mas como elemento capaz de orientar e transformar a própria gestão. “Construir saúde pública tem que ser a partir dos territórios”, afirmou.
Putira ainda apresentou a ideia de intermedicalidade como diálogo entre diferentes sistemas médicos e científicos. A proposta, explicou, não é estabelecer uma disputa entre conhecimentos, mas construir formas de cuidado nas quais a biomedicina e as ciências ancestrais possam atuar conjuntamente.
Rachel Gouveia iniciou sua participação destacando o sentido de estar “ao lado” das diferentes mulheres, populações e movimentos que constroem cotidianamente o direito à saúde. A partir da tradição do feminismo negro interseccional, a pesquisadora situou sua própria trajetória nos movimentos sociais, na luta antimanicomial, no SUS, na gestão pública e na universidade.
Ao discutir o conceito de interseccionalidade, Rachel chamou atenção para o risco de esvaziamento do termo. Segundo ela, a noção nasce das formulações e lutas de mulheres negras e permite compreender como diferenças relacionadas a raça, gênero, classe, território, geração, sexualidade e outras dimensões da vida são transformadas em hierarquias sociais.
“A interseccionalidade nada mais é do que uma ferramenta teórica, prática, política, ética, estética para compreender as relações sociais, os processos de subjetivação e os modos de vida”, explicou.
Essas hierarquias, destacou, também atravessam os serviços e as práticas de saúde. Por isso, reconhecer as diferenças não significa abandonar a universalidade, mas compreender como desigualdades históricas interferem no acesso, no atendimento e na produção do cuidado.
Rachel relacionou esse debate ao colonialismo e às formas pelas quais determinados conhecimentos são reconhecidos como legítimos enquanto outros são desconsiderados. Para ela, a produção do cuidado precisa abandonar uma lógica de imposição e reconhecer os conhecimentos, histórias e particularidades das populações e dos territórios.
“Eu não posso dizer sobre a realidade da favela. Eu posso aprender com a realidade da favela e, junto com essa realidade, produzir possibilidades de cuidado e saúde”, exemplificou.
Na parte final de sua exposição, Rachel aproximou a interseccionalidade dos princípios do SUS, especialmente da equidade. A pesquisadora questionou como esse princípio tem sido efetivado e ressaltou que oferecer serviços de maneira universal não significa ignorar as diferenças entre as populações e os territórios.
“Não dá para a unidade básica de saúde chegar no território quilombola e não reconhecer o que é particular daquele território. Não dá para a unidade básica de saúde chegar no território indígena e não compreender aquela realidade”, afirmou.
Para Rachel, a interseccionalidade pode funcionar como ferramenta concreta para a gestão, o planejamento, a construção de indicadores, a formação dos trabalhadores e a organização dos serviços. Nesse processo, destacou a importância do quesito raça-cor e da adoção de estratégias antirracistas na produção do cuidado.
A pesquisadora defendeu ainda que as mudanças necessárias envolvam a formação profissional e a educação permanente, alcançando tanto os serviços de saúde quanto as universidades. “A gente precisa entender a nossa população. Ela é diversa, ela é plural”, ressaltou.
Assista à integra do Grande Debate


