
Uma mesa emocionante reuniu, na manhã do segundo dia de congresso (18), atuais e ex-coordenadoras da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS) da Abrasco para relembrar a trajetória da área ao longo de quatro décadas. A “Memória dos 40 Anos da Comissão de CSHS”, mediada por Martinho Mansur, integrante do Grupo de Trabalho Violência e Saúde da Abrasco e ex-coordenador da comissão, reuniu Cecília Minayo, Leny Trad, Luiza Garnelo, Reni Barsaglini e Tatiana Gerhardt. A sessão terminou com uma fala do atual coordenador da comissão, Henrique Saldanha, que subiu à mesa para homenagear as fundadoras da área.
Martinho Mansur abriu a mesa destacando a valorização das Ciências Sociais no campo da Saúde Coletiva. “É um marco histórico de capilaridade e consolidação institucional que nos dá a medida exata da importância de resgatarmos e celebrarmos, hoje, estes 40 anos de resistência, pensamento crítico e intervenção social da nossa comissão”, disse. Ele agradeceu às colegas do grupo de trabalho sobre memória que ajudou a montar a mesa e a preparar as homenagens do congresso e anunciou o projeto de pesquisa “40 Anos da Comissão de Ciências Sociais e Humanas da Abrasco”, que busca reunir na memória coletiva fatos, atores e efeitos das ciências sociais e humanas sobre a saúde coletiva brasileira. A iniciativa dá sequência ao projeto Memória 30 Anos da Comissão.
Martinho também apresentou as convidadas destacando a trajetória de cada uma dentro da Abrasco: Cecília Minayo, única representante das humanidades a presidir a associação, entre 1994 e 1996; Reni Barsaglini, que integrou a vice-presidência entre 2021 e 2024 e apoiou a criação de uma categoria própria no CNPq para financiar pesquisas da área; Leny Trad, que coordenou a comissão, também ocupou a vice-presidência da Abrasco e foi coordenadora adjunta da área de Saúde Coletiva na Capes; Tatiana Gerhardt, ex-coordenadora da comissão, ex-vice-presidente da Abrasco e ex-integrante do Conselho Deliberativo; e Luiza Garnelo, da Fiocruz Amazônia, também ex-vice-presidente e liderança reconhecida tanto na saúde coletiva quanto na epidemiologia.
Da pré-história da área aos primeiros congressos
Cecília Minayo abriu a rodada de memórias lembrando que a discussão das Ciências Sociais na Saúde Coletiva não nasceu como debate teórico, mas como prática, no bojo da Reforma Sanitária, quando Sônia Fleury teve papel importante em trazer a teoria política para o campo. Com a fundação da Abrasco, em 1979, a organização interna da associação começou pela Epidemiologia, área que, segundo ela, deu forte consistência biomédica ao campo da Saúde Pública. Ainda assim, desde o início houve esforço para reunir cientistas sociais dedicados a temas de saúde, com destaque para Cecília Donnangelo, socióloga que teorizou sobre a mercantilização da medicina e faleceu jovem, e para Everardo Nunes, primeiro coordenador da área de Ciências Sociais e Saúde na Abrasco, professor na Unicamp com formação no Brasil e na Inglaterra.
Minayo também lembrou Ana Maria Canesqui, segunda coordenadora da área, que organizou com Everardo Nunes o primeiro Encontro de Ciências Sociais e Saúde, em Belo Horizonte, e conduziu um levantamento que localizou 159 cientistas sociais dedicados ao tema no país, um número expressivo para a época. Eleita presidente da Abrasco, Minayo tornou-se a primeira mulher e a primeira cientista social a ocupar o cargo. Foi nesse período que, a partir do sucesso de um encontro anterior, a comissão decidiu organizar o primeiro Congresso de Ciências Sociais, realizado com apoio do então secretário de saúde do Paraná, Dr. Armando, e do prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, reunindo 450 participantes. Minayo recordou uma frase que Lerner disse a ela na abertura do evento, e que guarda até hoje: “é preciso que a área de saúde saiba que nós estamos cansados de pessoas que trabalham com problematização. Nós estamos precisando solucionar problemas. Então, essa frase ficou na minha cabeça e me guia muito. Eu acho que a área de saúde tem que trabalhar para solucionar. Pode ser que não seja diretamente, seja indiretamente, mas nós temos que ter um propósito prático voltado para a saúde da população”.
Branquitude, representatividade e os novos grupos de trabalho
Leny Trad relatou seu papel na preparação do Congresso de Florianópolis, em 2005, quando a comissão discutiu a identidade híbrida da Saúde Coletiva e decidiu incorporar o termo “Humanas” ao seu nome. Foi também o momento em que a comissão passou a se questionar sobre sua composição excessivamente branca e sobre o quanto a discussão da diversidade e da representatividade desafiava quem já ocupava posições de poder. Segundo ela, esse incômodo abriu caminho para a chegada de Luiz Eduardo Batista à diretoria da Abrasco e para a criação de dois grupos de trabalho até então represados: o GT Racismo e Saúde, cuja proposta já existia havia 30 anos, e o GT Pessoas com Deficiência.
Trad também descreveu o movimento de institucionalização da área, impulsionado pela criação dos cursos de graduação em Saúde Coletiva e pela exigência de representação institucional de cada programa de pós-graduação junto à comissão. Para ela, esse processo caminhou junto com a despersonalização da liderança: “quanto menos vocês lembrarem o nome do coordenador da comissão, melhor”, disse, associando isso ao fortalecimento do trabalho coletivo. A pesquisadora relembrou ainda o Congresso de São Paulo, cujo lema era “Usos e Abusos das Ciências Sociais em Saúde”, numa crítica ao uso superficial de métodos e teorias das Ciências Sociais na área. Segundo Trad, esse processo levou a comissão a se voltar mais para fora, questionando o sentido da própria produção acadêmica quando desconectada da sociedade.
Amazônia como lugar de fala
Luiza Garnelo fez uma fala sobre a posição periférica da Amazônia na história das Ciências Sociais e Humanas em Saúde, marcada por um processo de colonização que avança lentamente do leste para o oeste do país. Ela recordou sua participação no segundo Congresso da Abrasco, em São Paulo, em 1979, quando ainda era psiquiatra e iniciava a residência de Medicina Preventiva e Social em Manaus, uma experiência decisiva para sua conversão à Saúde Coletiva. A residência, contou, foi iniciativa de Hésio Cordeiro à frente da Fiocruz, num esforço para formar sanitaristas no Amazonas, então considerado um dos estados mais atrasados nas discussões de política de saúde.
Garnelo também relembrou um curso sobre Planejamento e Gestão promovido pela Abrasco em Águas de Lindoia, com Sérgio Arouca e Gastão Wagner, ao qual só teve acesso após pedir autorização diretamente a Hésio, já que a atividade era voltada a coordenadores, não a residentes. Por fim, destacou o Sétimo Congresso Latino-Americano de Ciências Sociais e Saúde, realizado em Angra dos Reis em 2003, promovido pelo Fórum Mundial de Ciências Sociais e pela comissão da Abrasco, que resultou no livro organizado por Cecília Minayo e Carlos Coimbra considerado um marco fundador do campo. Encerrou destacando o papel de Hésio na formação de uma geração de sanitaristas na Amazônia, hoje à frente da organização do próprio congresso em Manaus.
Cuidado, ambivalências e o tempo das gerações
Reni Barsaglini, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso, relatou sua entrada na comissão em 2013, onde permaneceu até 2016, seguida de um período na suplência e, mais tarde, pela vice-presidência da Abrasco. Ela propôs pensar os processos de inclusão vividos pela comissão através do conceito de cuidado, mas um cuidado atento às próprias ambivalências e contradições, capaz de perturbar o status quo sem se tornar apenas um gesto burocrático. Barsaglini destacou os critérios de composição do núcleo gestor (regional, étnico-racial, de gênero e de filiação institucional) como parte desse esforço, e lembrou que a mudança das sedes dos congressos pelo país, incluindo o Sétimo Congresso em Cuiabá, ajudou a comissão a superar a concentração histórica no eixo Rio-São Paulo.
Ela também citou iniciativas que diversificaram a atuação da comissão para além da organização dos congressos, como o Projeto Perfil, coordenado por Leny Trad, o coletivo Ampliando Linguagens e a Semana Intersaberes, além de atos públicos que, no atual período eleitoral, enfrentam restrições. Encerrou sua fala exaltando a “ciência que perturba”, defendendo que as Ciências Sociais e Humanas em saúde devem seguir cumprindo esse papel.
Da enfermagem à antropologia, um compromisso institucional
Tatiana Gerhardt, professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, contou sua trajetória da Enfermagem para a Antropologia e sua entrada na comissão em 2013, quando recebeu o que chamou de “bastão” de Leny Trad. Ao lado de Trad, Maria Helena Mendonça e Luiz Eduardo Batista, trabalhou para diversificar a coordenação da comissão por meio de um núcleo gestor que contemplasse as cinco regiões do país e questões étnicorraciais. Na gestão 2014-2017, a comissão instituiu um plano estratégico de ação e um ciclo de simpósios que percorreu as cinco regiões discutindo ensino, extensão, pesquisa e política institucional, com o simpósio de ensino de 2014 debatendo os desafios da nova graduação em Saúde Coletiva, iniciada em 2009. Esse processo preparou o caminho para o Sétimo Congresso de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, realizado em Cuiabá, a primeira vez que o evento saiu do eixo Brasília.
Gerhardt também citou o Projeto Perfil, coordenado por Leny Trad, que mapeou a pesquisa, o ensino e a extensão em Ciências Sociais nos programas de pós-graduação em Saúde Coletiva, e o Projeto Memória, lançado no Rio de Janeiro e depois levado a outras regiões por Roseni Pinheiro. Lembrou ainda a participação da comissão no GT de Ciências Sociais e Humanas da extinta Conep, na construção da Resolução 510, com Maria Lúcia Bosi como representante titular da Abrasco e, depois, Martinho Mansur à frente do trabalho. Destacou a institucionalização das ações afirmativas na Abrasco em 2022, resultado de demandas que já se manifestavam nos congressos de 2019, e a carta de compromisso lida ao final do Abrascão em Salvador, defendendo que o documento ganhe lugar mais visível no site da associação. Por fim, citou o edital da Capes de 2023 sobre políticas afirmativas e a rede de pesquisadores formada a partir dele, coordenada por Marcelo Castellanos, da UFBA, e contou que, na própria UFRGS, a graduação em saúde coletiva já conta com corpo docente e carga horária equilibrados entre as três subáreas. Ao final, convidou Henrique Saldanha a subir à mesa para uma homenagem.
Diversidade para além da vaga
Fora do roteiro previsto, Henrique Saldanha subiu à mesa visivelmente emocionado. Contou que chegou às Ciências Sociais durante a graduação, quando seu orientador o apresentou a Mônica Angelin, que não pôde estar presente ao congresso por motivo de saúde, e que leu “O Desafio do Conhecimento”, de Cecília Minayo, após meses de busca, para elaborar seu projeto de mestrado. Há três anos, no congresso anterior, foi convidado por Mônica Nunes, então coordenadora da comissão, a integrar o núcleo gestor, que passou a contar com uma sexta vaga voltada à diversidade racial. Para ela, é importante que a diversidade racial se dê sem necessidade desta vaga especial.
Saldanha aproveitou o momento para anunciar o balanço do 10º CSHS: 1.800 credenciamentos e 2.500 inscrições efetivadas até aquele momento. Agradeceu a Marta Verde e Karina Nicolau, à frente da comissão científica do congresso, e às equipes da UEA, da UFAM e da Fiocruz que viabilizaram o evento em Manaus. Encerrou definindo-se, com bom humor, como parte de uma nova geração de sanitaristas formada pela geração presente na mesa, e assumiu o compromisso público de seguir fortalecendo a área nos próximos anos.


