
A atenção primária à saúde (APS) de populações ribeirinhas e indígenas, sob o efeito de secas extremas, queimadas e outras mudanças climáticas, foi o tema da mesa redonda “Desafios da Atenção Primária à Saúde para Populações Ribeirinhas e Indígenas na Região Amazônica no Contexto das Mudanças Climáticas”. A atividade aconteceu na manhã de 19 de setembro, último dia do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), em Manaus, com coordenação de Luiz Facchini, coordenador da Rede APS da Abrasc e professor da Universidade Federal de Pelotas.
Participaram como expositores Paulo de Tarso Oliveira, da Universidade Federal do Pará, Juliana Gagno, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), e Luiza Garnelo, do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia). Ao final das exposições, Ligia Giovanella (Rede APS/Abrasco | ENSP/Fiocruz) apresentou a proposta de uma rede de pesquisa em APS para a Amazônia Legal.
Parte da mesa, que vai da fala de Luiza Garnelo ao início do debate, pode ser assistida no canal da TV Abrasco: CSHS | Desafios da Atenção Primária à Saúde para populações Ribeirinhas e Indígenas.
Um balanço da agenda de saúde para a Amazônia
Paulo de Tarso Oliveira, bolsista do Departamento de Gestão Interfederativa e Participativa do Ministério da Saúde, apresentou um balanço da Agenda Mais Saúde Amazônia, lançada durante a COP 30, em Belém. Como coordenador da agenda, lembrou que a região reivindica há mais de 20 anos o reconhecimento concreto de suas desigualdades, com financiamento e tecnologias diferenciados. Segundo ele, os planos macrorregionais da Amazônia elegeram a saúde da mulher e da criança como primeira prioridade, seguida pela saúde mental. Nesse campo, afirmou que a região pediu 100 Caps ao Ministério, demanda que relacionou aos efeitos do capitalismo e aos desafios de soberania nacional na região.
Na atenção primária, citou o aumento de 60% das equipes de Saúde da Família Ribeirinhas e a retomada de 34 unidades básicas fluviais, além de 92 em reconstrução e 15 em planejamento. Na assistência, destacou a ampliação do Mais Médicos, com 5.650 profissionais na região e 79 nos distritos indígenas, a chegada da radioterapia a Santarém e Belém e a primeira linha de cuidado para contaminação por mercúrio. Para garantir o acesso às comunidades, defendeu a compra diferenciada de combustível para o Samu e para as unidades, apontado por ele como principal obstáculo.
Quanto aos desafios, mencionou a inclusão da agenda no Plano Plurianual 2027-2030, um arranjo que reúna gestores da região Norte e o financiamento diferenciado. Por fim, Paulo de Tarso encerrou defendendo o reconhecimento da ciência produzida na Amazônia, que, segundo ele, “tem gente competente e que tem gente dos movimentos, dos trabalhadores e dos gestores em condições de buscar saídas concretas para nossa região”.
Acesso, itinerância e telessaúde na atenção primária
Juliana Gagno apresentou resultados preliminares da pesquisa “Atenção Primária à Saúde em Municípios Rurais Remotos do Brasil”, coordenada por Márcia Fausto. A investigação originou um livro premiado com o Jabuti e está em seu segundo ciclo, em 2025 e 2026. Juliana trouxe também resultados de dois projetos, “Tecendo o Cuidado Integral à Saúde na Amazônia” e “Pesquisando o Caminho das Águas”, coordenados por Aylene Bousquat, da USP, os quais levaram ao Núcleo de Telesaúde da Ufopa, aprovado pelo Ministério da Saúde em junho.
Ela organizou o acesso à APS na Amazônia em cinco dimensões. A geográfica envolve grandes distâncias e sazonalidade entre seca e cheia, e a organizacional, horários, urgências, insumos e rotatividade de profissionais. Já a econômica reúne custos de combustível, alimentação, hospedagem e medicamentos. Na dimensão sociocultural, destacou as línguas indígenas e as práticas tradicionais de cuidado, que devem ser reconhecidas como parte do SUS. Por fim, na digital, apontou a necessidade de internet de qualidade, energia solar e telessaúde. Com base nesse recorte, resumiu o desafio: “a Amazônia com esses territórios diversos, mas com o mesmo direito à saúde”.
Entre as experiências de organização, destacou as unidades básicas fluviais, as lanchas de apoio e as equipes ribeirinhas fixas com itinerância, como a UBS de Arapixuna, em Santarém. Ela lembrou, porém, que em partes do oeste do Pará as unidades fluviais não saem de outubro a janeiro, por causa do nível dos rios. Sobre a telessaúde, ressaltou a importância de uma atuação integrada à equipe do território, sem substituí-la. Na avaliação dela, “não existe um único formato de modelo organizacional para APS na Amazônia, e nem tudo que existe foi mapeado”.
Ao apresentar fotos do rio Tapajós em setembro de 2025 e da seca extrema de 2023 em Curuá, mostrou os efeitos das mudanças climáticas, como mais doenças respiratórias e gastrointestinais, insegurança alimentar e agravamento da saúde mental. Diante desse cenário, avaliou que os modelos de APS precisam de logística, infraestrutura, financiamento, fixação de profissionais e ação intersetorial.
Indicadores, desigualdades e os limites da atenção primária
Luiza Garnelo apresentou um panorama social e ambiental da Amazônia a partir do Índice de Progresso Social. Segundo ela, os dados mostram situação desfavorável em necessidades básicas e na qualidade do ambiente, com destaque para o arco do desmatamento e o crescimento da mineração ilegal. Nas áreas rurais, acrescentou, a população se concentra em crianças e idosos, e a transição alimentar acelerada traz como consequência mais obesidade, diabetes e hipertensão. Sobre a violência, citou homicídios acima de 70 por 100 mil habitantes em vários municípios. Quanto às repercussões da crise climática no perfil epidemiológico, mencionou 250 mil mortes adicionais por desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico, 7 milhões de casos de arboviroses, aumento de 855% da dengue nas três primeiras semanas de 2024 e 1,8 milhão de pessoas afetadas por desastres.
Sobre o financiamento da saúde na região, Garnelo disse que o custeio das UBS pesa nos municípios, que dependem de repasses e emendas parlamentares. Em pesquisas, observou que o cuidado dentro da unidade funciona graças à dedicação das equipes, mas que a ruptura ocorre no acesso à regulação. Os agravos da degradação ambiental e da violência, ainda segundo ela, ultrapassam a capacidade de resolução da APS. Para ilustrar as condições de trabalho, exibiu a foto de uma equipe de UBS que caminha uma hora e meia, perto do rio Negro, para chegar a uma comunidade na seca.
A coordenadora da Rede APS da Abrasco, Ligia Giovanella, propôs uma rede de pesquisa em APS da Amazônia Legal, ligada à rede nacional. Ela relatou que o Censo Nacional das Unidades Básicas de Saúde, realizado em 2024, analisou 44.938 unidades e aponta assimetrias de infraestrutura no Norte. Esses resultados foram reunidos em um e-book de sete capítulos, “Panorama da Atenção Primária à Saúde no Brasil: Censo Nacional das Unidades Básicas”.
A proposta prevê um primeiro núcleo operativo com instituições da região (Ufam, UEA, Universidade Federal de Mato Grosso, Universidade Federal do Maranhão, Ufopa e Fiocruz Amazônia). Esse núcleo deverá promover cooperação, intercâmbio e difusão de resultados e construir uma agenda de pesquisa com foco nas territorialidades locais. Em seguida, os grupos de pesquisa serão convidados, e um comitê consultivo reunirá ensino, gestão e controle social.
Intersetorialidade, participação social e defesa do SUS
Nas considerações finais, Luiza Garnelo comentou que as doenças negligenciadas refletem a pouca atenção a particularidades regionais e que o país precisa de uma política específica para que entrem no cotidiano da APS. Em seguida, Paulo de Tarso disse que a rede de APS é bem-vinda e destacou os mais de 300 campi de universidades na Amazônia que podem se articular à proposta. Ele também defendeu a recuperação da visão intersetorial do SUS: “a gente perdeu esse pilar da visão intersetorial do SUS, e a gente tá muito focado na atenção, mas a gente precisa olhar para um entorno do sistema”. Na sequência, Juliana afirmou que o desafio é a “defesa intransigente do SUS”, universal e com participação social, e pediu mais participação nas conferências, nos conselhos e nos espaços de formação. Para encerrar, Facchini e Ligia assumiram o compromisso de manter vínculo com os grupos da região e com o controle social.











