
A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) participou do 18º Congresso Mundial de Saúde Pública, promovido pela Federação Mundial de Associações de Saúde Pública (WFPHA), realizado entre os dias 6 e 9 de setembro, na Cidade do Cabo, África do Sul. Sob o tema “Saúde sem Fronteiras: Equidade, Inclusão e Sustentabilidade”, o encontro reuniu pesquisadores, profissionais de saúde, gestores, representantes de associações científicas e movimentos sociais de diferentes países para discutir desafios contemporâneos da saúde pública e fortalecer a cooperação internacional.
A participação brasileira teve presença em sessões científicas, mesas de debate e atividades dedicadas à organização dos sistemas de saúde, à determinação social da saúde, à inteligência artificial e à cooperação em ciência e tecnologia. A delegação reuniu representantes de instituições acadêmicas, científicas e de serviços de saúde, contribuindo para o intercâmbio de experiências e conhecimentos com diferentes países.
Para Marília Louvison, coordenadora da Comissão de PPGS da Abrasco, o congresso representou uma oportunidade de aproximar o campo da Saúde Coletiva brasileira do movimento sanitário internacional, especialmente em torno da defesa dos sistemas universais de saúde e da garantia do direito à saúde.
“O Congresso Mundial de Saúde Pública da WFPHA foi de grande importância para articular o campo da Saúde Coletiva brasileira ao movimento sanitário internacional, na defesa dos sistemas universais e no enfrentamento dos desafios para a garantia do direito à saúde”, destacou. Segundo Louvison, a delegação brasileira também contribuiu para os debates e para o compartilhamento da produção científica nas áreas de Epidemiologia, Ciências Sociais e Humanas em Saúde e Política, Planejamento e Gestão.




O SUS e a Saúde Coletiva brasileira no debate internacional
A experiência brasileira de construção do Sistema Único de Saúde (SUS) esteve presente em diferentes momentos da programação, especialmente nos debates sobre democracia, participação social, desigualdades e organização dos sistemas nacionais de saúde.
O presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, destacou que o congresso possibilitou estabelecer diálogos entre a experiência brasileira e as iniciativas desenvolvidas por outros países, particularmente aqueles que integram o BRICS. “A participação da Abrasco no Congresso da Federação das Associações de Saúde Pública foi marcada por um certo cotejamento entre o que nós estamos realizando no Brasil e o que outros países, sobretudo os países ligados aos BRICS, no seu formato original, estão realizando”, afirmou.
Segundo Rômulo, a trajetória brasileira desperta interesse internacional por reunir a construção de um sistema universal de saúde, o processo de redemocratização e a constituição da Saúde Coletiva como campo de conhecimento. Nesse percurso, a participação social ocupa lugar central, ao reconhecer que as experiências e reflexões da população usuária contribuem para o aprimoramento do SUS.
O presidente também ressaltou que os debates permitiram apresentar internacionalmente os processos recentes de recomposição do SUS, após os desafios enfrentados durante a pandemia de Covid-19, assim como iniciativas voltadas ao enfrentamento de problemas estruturais do sistema.
Para Luis Eugenio de Souza, o 18º Congresso Mundial de Saúde Pública proporcionou um amplo debate sobre os desafios contemporâneos da saúde, reunindo discussões sobre desigualdades, democracia, governança, multilateralismo, fortalecimento da atenção primária, transformação digital e mudanças climáticas, entre outros temas.
O abrasquiano também destacou a expressiva participação brasileira, que constituiu a segunda maior delegação do congresso, atrás apenas da África do Sul, país anfitrião. “A delegação brasileira, a segunda mais numerosa entre todos os países, sendo menor apenas do que a delegação sul-africana, teve uma participação destacada, tanto nas sessões de pôsteres e apresentações orais, quanto nas plenárias”, afirmou.
A professora Aylene Bousquat, integrante da coordenação da área de Saúde Coletiva da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), também destacou a relevância do tema do congresso diante de um cenário internacional marcado pelo aumento dos conflitos armados, pelo deslocamento forçado de populações, pelas ameaças à democracia e pelo agravamento dos desastres climáticos. Para a pesquisadora, essas crises reforçam a necessidade de colocar a equidade, a inclusão e a sustentabilidade no centro dos debates sobre o futuro da saúde pública.
“A equidade é um princípio fundamental da Saúde Pública internacional e da nossa Saúde Coletiva. Apresentar as reflexões e experiências da construção do maior sistema público e universal de saúde do mundo, o SUS, é sem dúvida essencial para o debate global sobre políticas de saúde. É tarefa central da nossa comunidade científica reforçar que construir sistemas de saúde alicerçados na equidade e na saúde como direito humano não só é possível, como é essencial para o futuro do planeta”, afirmou Aylene.
Entre as contribuições brasileiras às sessões plenárias, Luis Eugenio ressaltou as participações de Rômulo Paes de Sousa, que apresentou o Bolsa Família como política de enfrentamento das iniquidades; Sonia Fleury, que discutiu as relações entre saúde e democracia a partir da Reforma Sanitária brasileira; e Aylene Bousquat, que abordou a Estratégia Saúde da Família como referência para a Atenção Primária à Saúde (APS) no Brasil.
Saúde digital, soberania tecnológica e cooperação científica
A saúde digital também ocupou espaço na programação do congresso, com discussões sobre inteligência artificial, tecnologias aplicadas à assistência e à epidemiologia, desinformação e impactos das plataformas digitais sobre a saúde.
O abrasquiano Marcelo Fornazin destacou a diversidade de abordagens e a participação brasileira nesses debates, especialmente nas discussões sobre estratégias de saúde digital no Sul Global.
Fornazin participou de uma mesa proposta a partir da Fiocruz e da Abrasco, que reuniu experiências do Brasil, da China e de Moçambique. A atividade discutiu diferentes estratégias nacionais de saúde digital, questões regulatórias e os desafios de desenvolver tecnologias comprometidas com os princípios dos sistemas universais de saúde. “Foi um debate muito interessante para conhecer as iniciativas brasileira, chinesa e moçambicana, discutir questões regulatórias, como assegurar a soberania e pensar modelos tecnológicos que fortaleçam a universalidade e enfrentem as desigualdades”, relatou.
Para o pesquisador, o encontro também evidenciou a importância de discutir as tecnologias digitais a partir das necessidades dos sistemas públicos de saúde, considerando seus efeitos sobre a equidade, o acesso e a organização da atenção.
A programação contou ainda com debates sobre produção de vacinas e medicamentos, desenvolvimento tecnológico e parcerias internacionais, reforçando a importância da cooperação científica e da construção de capacidades nacionais e regionais para enfrentar os desafios da saúde pública.
A participação da Abrasco no congresso reafirma seu compromisso com o intercâmbio científico internacional e com a articulação entre instituições e associações de saúde pública, contribuindo para fortalecer a defesa dos sistemas universais, da equidade e do direito à saúde.


