
A manhã do último dia do 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente começou com a Grande Roda 5, “A Saúde é Coletiva: Agroecologia, Interculturalidade, Solidariedade e Emancipação Popular”, no Teatro Universitário da UFMT. A mesa reuniu lideranças indígenas, pesquisadoras da Fiocruz e militantes do movimento agroecológico para debater como a saúde coletiva e a agroecologia se articulam na resistência ao colapso ecológico. A coordenação ficou a cargo de Marla Kuhn, integrante do GT Saúde e Ambiente da Abrasco e membra da Comunidade que Sustenta a Agricultura Ecológica (CSA), e de Graciela Stornini de Almeida, conhecida como Gati, agricultora ecológica assentada da reforma agrária em Nova Santa Rita (RS), Presidenta da Associação de Produtores da Economia Solidária Contraponto e militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Ao apresentar a mesa, Graciela descreveu a chegada a Cuiabá: “fomos recebidas com uma placa enorme que diz: ‘Capital do Agronegócio’. Lá em casa a gente chama de agronecrócio, porque o agro para nós é morte”.
O primeiro a falar foi Elosmar Antonio, liderança indígena Terena e integrante do Coletivo Ambientalista Indígena de Ação para Natureza, Agroecologia e Sustentabilidade (CAIANAS), da Terra Indígena Cachoeirinha, em Miranda (MS). A relação dos Terena com a produção de alimentos, contou Elosmar, remete ao próprio mito de origem do povo. “Os sistemas agroalimentares dos povos indígenas vão para além de práticas técnicas. Eles têm rituais sagrados envolvidos, benzimento das sementes, espécies que têm a função de proteger a roça, tecnologias espirituais no controle de pragas”. Foi nessa direção que Elosmar lançou um dos desafios mais provocadores da mesa. “A gente precisa sair dessa agroecologia fria, tecnicista. As técnicas espirituais também têm que ser consideradas dentro desse campo”.
A roça, para o povo Terena, é também escola. “É ali que os pais ensinam aos filhos a convivência em família e comunidade, as fases da lua, o respeito à terra”. E a relação entre alimentação e bem-estar está inscrita na própria língua. “Quando eu vou dizer ‘eu tô feliz’, na nossa língua dizemos algo que, traduzido literalmente para o português, quer dizer ‘o meu estômago está feliz’. A gente precisa estar bem nutrido, alimentado para estar feliz. Mas com comida sem veneno”. Para Elosmar, o colonialismo alimentar afasta os jovens indígenas por afirmar a roça como um lugar de castigo, de atraso.
Ainda em sua fala, Elosmar celebrou que a Universidade dos Povos Indígenas que foi instituída ontem (28) pelo presidente Lula. “É um grande avanço na história do país, uma vez que estamos aqui falando de interculturalidade. A própria ciência ocidental já reconheceu como as ciências indígenas são estratégicas. Ontem foi um grande marco”. Ele informou também que a CAIANAS iniciou um programa de monitoramento diário de vento, umidade e irradiação na Terra Indígena Cachoeirinha para produzir dados científicos sobre os impactos climáticos no território. “No Centro-Oeste não tem só transgênico. Tem agroecologia, tem resistência dos povos indígenas”, encerrou.
Fernanda Savicki de Almeida, engenheira agrônoma e pesquisadora de saúde e ambiente da Fiocruz Ceará, trouxe dados concretos sobre a disparidade de recursos entre o agronegócio e os setores que sustentam a agricultura familiar e a saúde coletiva. Na semana do SIBSA, a Câmara de Assuntos Econômicos aprovou um subsídio ao agronegócio de cerca de 180 bilhões de reais. Ela explicou que órgãos importantíssimos que movem uma parte fundamental do Brasil não chegam nem próximo a esse valor. “Isso equivale a 66% do orçamento anual do Ministério da Saúde para sustentar o SUS e dar conta de suas atividades por um ano inteiro”, comparou. O Ministério da Agricultura e Pecuária tem 20 bilhões anuais; já o Ministério de Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA/MDA) e o Ministério dos Povos Indígenas somados chegam a cerca de 12 bilhões.
A pesquisadora também informou que a Fiocruz Ceará encontrou agrotóxicos no arroz produzido na Terra Indígena Cachoeirinha, onde vive Elosmar, “um território que supostamente está longe da soja, mas não está longe dos agrotóxicos”. Foi encontrado um inseticida específico no arroz. “Os Terena são responsáveis por etnovariedades de arroz que a gente só encontra com eles. Vejam o risco da perda da biodiversidade por conta do avanço inescrupuloso do agronegócio sobre os territórios”, alertou Fernanda. Para encerrar, a pesquisadora exaltou a capacidade de resistência dos movimentos: “dos 168 Núcleos de Agroecologia que existiam, 74 se mantinham ativos desde 2017 sem recurso algum. A gente faz tudo isso, apesar do agronegócio, rumo a um país agroecológico e, portanto, saudável”.
Na transição para a fala seguinte, Gati acrescentou um dado de pesquisa. “A cada dólar que se gasta no uso de agrotóxicos, o sistema público de saúde gasta 1,2 dólares assumindo as consequências socioambientais do uso de venenos. Não podemos ter saúde se a nossa Mãe Terra está doente. E quem adoeceu essa Mãe Terra não foi ela, foi o sistema”, ponderou.
Ada Cristina Pontes Aguiar, médica e pesquisadora do Núcleo de Ecologia e Encontro de Saberes para Promoção Emancipatória da Saúde (Neepes/ENSP/Fiocruz), entende que a saúde coletiva brasileira, apesar de crítica desde sua origem, alimentou-se sobretudo das epistemologias do Norte. “Essa ciência moderna que se pretende superior e única contribuiu para o momento desafiador que a gente vive como civilização. Para superar esses problemas, a gente não vai ter força de fazer isso só com essa ciência que nos trouxe até aqui.” A saída está no diálogo intercultural. “A gente precisa construir pontes entre os diversos conhecimentos para lidar com essa crise, dialogar com a diversidade epistemológica do mundo”.
Para exemplificar essa perspectiva, Ada apresentou três territórios onde desenvolve pesquisas: a Chapada do Araripe no Ceará, a Serra da Misericórdia no Rio de Janeiro e o Quilombo do Paraíso em Salvador. Ela compartilhou os exemplos com a intenção de defender o conceito de promoção emancipatória da saúde a partir de seis aproximações entre saúde coletiva e agroecologia: a compreensão de que somos natureza e estamos integrados às teias ecossistêmicas da vida; a valorização de diálogos interdisciplinares e interculturais; o compromisso com a visibilização de caminhos já sendo construídos pelas comunidades; o engajamento com os desafios planetários em curso; a incorporação de metodologias sensíveis e colaborativas; e, por fim, descolonizar e corazonar a saúde coletiva e a agroecologia. “Saúde é vida como produtora de vida. Ao conhecer e trabalhar com essas mulheres e esses coletivos nos territórios, a gente percebe que a produção da vida é incessante e se multiplica com esses processos coletivos.”
O relatório poético da Grande Roda ficou a cargo de Maicon Caatingueiro. Ele contou que, ao conhecer a sigla Abrasco, pensou logo em abraço. “Abrasco só não é abraço por conta do S da saúde coletiva, que aumenta o tamanho do abraço. A Abrasco é a Associação Brasileira de Saúde Coletiva, mas pode também ser Associação Brasileira do Abraço”. Com essa ideia, ele conduziu uma dinâmica afetiva de integração da plateia, que terminou em um abraço. Sua síntese encerrou a roda: “Uma ciência verdadeira, ela tem que corazonar”.
O colapso climático também é urbano
Na sequência da Grande Roda, os participantes se distribuíram por mais sete Rodas Temáticas simultâneas nos auditórios e salas do campus da UFMT, aprofundando temas que percorreram os três dias do Simpósio.
A Roda “Racismo ambiental, modelos de cuidado e formação em saúde indígena: desafios para o bem viver”, coordenada por Marcela Acioli (IEPS/PA), reuniu representantes indígenas e pesquisadores como Putira Sacuena, da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), e Sila Apurinã, da Rede de Trabalho da Amazônia (GTA/AM). Já a Roda “Financiamento climático, crédito de carbono e anúncios da COP30: desafios para povos e comunidades tradicionais frente ao desmatamento e à degradação florestal”, foi coordenada por Reginaldo Araújo (UFMT) e incluía Eliane Xunakalo, liderança indígena de Mato Grosso, e Eugenio Scannavino, do Projeto Saúde e Alegria (PA).
“Os sentidos do trabalho em povos e comunidades tradicionais e as re-existências: instigando o campo saúde-trabalho-ambiente”, coordenada por Ana Cláudia Teixeira (Fiocruz Ceará), colocou em diálogo Marcelo Firpo Porto, do Rio de Janeiro, e Idalice Nunes, do MST de Mato Grosso, para debater as formas de resistência das comunidades tradicionais diante dos impactos do modelo produtivo sobre saúde e trabalho. O tema também atravessou a roda “Problemas e atuação para a transformação nos territórios de vida e trabalho”, coordenada por Thaís Uchôa, com participação de Eliane Ignotti e Ágata Dias, ambas do Ministério da Saúde, abordando a atuação do Ministério nos territórios de vida e trabalho
Ada Cristina Pontes Aguiar, que havia falado na Grande Roda, coordenou a Roda “Promoção emancipatória da saúde nas periferias urbanas: resistências e experiências territoriais para construção do bem viver em ocupações sem teto de Salvador e numa favela do Rio de Janeiro”, reunindo representantes Rita de Cassia, do Movimento Sem Teto da Bahia, Maria, dos Movimentos Unidos dos Camelos, do Rio de Janeiro e Juliana de Souza no Neeps/Fiocruz. O impacto do colapso no ambiente urbano, a questão de acesso a direitos básicos e a violência desses locais deu o tom da conversa.
Rita de Cassia apresentou a experiência do Residencial Paraíso de Deus, em Salvador, onde o Movimento Sem Teto da Bahia trabalha para transformar um conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida em espaço agroecológico. “Está difícil hoje você chegar em uma família e não ver duas ou três pessoas que tiveram, que têm ou que morreram de câncer. Por que está acontecendo isso? Por conta do consumo de venenos que nós estamos consumindo”, afirmou. “A gente quer transformar esse conjunto habitacional num conjunto agroecológico que sirva de modelo para outros conjuntos do Minha Casa Minha Vida. Precisamos levar comida saudável na mesa da classe trabalhadora”.
A insegurança alimentar entre crianças indígenas e crianças negras da região Norte e sua relação com o meio ambiente e as políticas públicas foi o tema da Roda coordenada por Ester Mourão, da Superintendência do Ministério da Saúde do Amazonas, com participação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Completou a programação da manhã a Roda “Da emergência climática à ação coletiva: construção da Rede Saúde e Clima no Brasil”, coordenada por Brenda Kauanne, com participação do Grupo de Trabalho Amazônico — um encontro que olhou para além do SIBSA, pensando a articulação em rede para os próximos anos.












