O 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA) realizou diversas atividades em homenagem ao cineasta brasileiro Silvio Tendler, considerado um dos maiores documentaristas do país e que faleceu em 5 de setembro de 2025, aos 75 anos. A programação reuniu artistas, cineastas, pesquisadores e lideranças indígenas e quilombolas para refletir sobre seu legado e a relação entre cinema, territórios, memória e justiça socioambiental. Ao longo do evento, foram promovidas uma Roda Temática dedicada ao debate sobre sua obra, na quarta-feira (27); uma Roda de Saberes criada em sua memória para a apresentação de produções audiovisuais de simposistas; e a Grande Roda que encerrou a programação desta quinta-feira (28), no campus principal da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Um dos maiores documentaristas do Brasil, Silvio Tendler alcançou grande projeção popular com seus filmes. Ao longo da carreira, dirigiu mais de 70 produções e 12 séries televisivas. Contou a história de personalidades brasileiras como João Goulart, Juscelino Kubitschek, Carlos Marighella, Glauber Rocha e Milton Santos, além de retratar iniciativas de movimentos populares e conflitos ambientais no país.
Seus filmes denunciaram desigualdades e modelos predatórios, como Dedo na Ferida (2017), que abordou o poder do capital financeiro, e O Veneno Está na Mesa I e II (2011 e 2014), produções dedicadas aos impactos dos agrotóxicos na saúde e no meio ambiente. Em uma de suas últimas obras, Fio da Meada (2019), o cineasta propôs reflexões sobre a construção de futuros baseados na justiça ambiental.
Participaram da Grande Roda o artista e integrante da Associação Indígena em Contexto Urbano Karaxuwanassu (ASSICUKA), Ziel Karapotó; a artista e diretora do Instituto Cultural Maluá, Tuinaki Koixaru; o diretor de cinema quilombola e membro do Coletivo Cinema dos Quilombos, Danilo Candombe; e o professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Felipe Milanez. A mediação foi conduzida pelo professor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), Marcelo Firpo.
A Grande Roda em homenagem ao cineasta teve início com um cortejo que atravessou o Teatro Universitário da UFMT. Os participantes cantaram em homenagem aos povos indígenas do território e também para saudar o orixá Ogun. Conforme a tradição iorubá, Ogun é o senhor da forja, da tecnologia e da agricultura, além de ser responsável por abrir caminhos e proteger os trabalhadores.
Marcelo Firpo, que trabalhou ao lado de Tendler e assinou, com Marina Fasanello, o roteiro de Fio da Meada (2019), abriu a conversa. O pesquisador relembrou a forma como o diretor conduzia seus projetos, sempre integrando as pessoas dos territórios ao processo de produção.”É um processo em que os sujeitos sociais e os cientistas constroem juntos esse cinema. O que filmar, como aparecer, e também participam da edição final. É muito especial. E isso nos leva à nossa grande pergunta: como a academia atualiza essas lutas, mas vai além dessas lutas?”, encerrou.
O professor Felipe Milanez deu sequência ao diálogo e destacou a importância de valorizar os saberes tradicionais e considerar diferentes perspectivas para compreender o território e a natureza, transcendendo paradigmas ocidentais. “Leva a pensar no território e na paisagem como arte, de forma que a expressão estética é a forma cognitiva de se relacionar com o mundo”, explicou.
Na sequência, foi a vez do cineasta quilombola Danilo Candombe apresentar suas contribuições. O diretor compartilhou algumas de suas produções, entre elas o documentário Entre Orações e Montanhas – O Legado das Benzedeiras e Benzedores (2025). A obra retrata com profundidade a relação entre espiritualidade, práticas ancestrais de cura e o vínculo entre o benzimento e a preservação ambiental no interior de Minas Gerais. O cineasta destacou a importância de que integrantes de comunidades tradicionais contem suas próprias histórias. “O meu cinema nasce justamente na necessidade de não deixar nossas imagens e existência desaparecerem. Antes de ser cinema, o meu trabalho é escuta”, afirmou.
O premiado multiartista Ziel Karapotó encerrou a Grande Roda. O performer afirmou acreditar na arte, na ciência e nos saberes de seus ancestrais como ferramentas de resistência e força anticolonial. Também abordou o potencial mobilizador do cinema e da arte para engajar as pessoas nos territórios.”A importância de entender a arte como uma ferramenta de manutenção e difusão dos nossos saberes e conhecimentos. O cinema tem essa capacidade de mobilização coletiva”, afirmou.
O 3º SIBSA acontece até esta sexta-feira, 29 de maio, e reúne conferências, mesas-redondas, rodas de saberes, apresentações de trabalhos científicos, atividades culturais e encontros entre redes e movimentos sociais. A programação busca fortalecer o debate sobre justiça socioambiental, defesa da vida e políticas públicas voltadas à proteção dos territórios, da biodiversidade e dos direitos humanos.

O 3º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente (SIBSA), será realizado de 27 a 29 de maio de 2026, com pré-congresso no dia 26 de maio. O evento acontece na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá e reunirá pesquisadoras e pesquisadores, estudantes, profissionais da saúde, movimentos sociais e lideranças comunitárias para debater as relações entre saúde, ambiente e a defesa da vida.
Com o tema “A luta da Saúde Coletiva frente ao colapso ecológico: soberania, justiça e conhecimento para a transformação”, o simpósio propõe um diálogo interdisciplinar e intercultural entre diferentes saberes.
Saiba mais: sibsa.org.br/








