
O primeiro dia (17) do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde em Manaus foi encerrado com 1.757 pessoas credenciadas na UFAM desde o início das atividades pré-congresso, na segunda-feira. Somente nesta quinta, foram realizadas 26 mesas redondas, um grande debate, duas sessões especiais, uma roda de conversa e uma edição da Merenda Intersaberes, além de 33 sessões de comunicação oral e uma sessão de outras linguagens, com trabalhos submetidos ao congresso.
Entre as atividades do dia, logo pela manhã, no Auditório Eulálio, a mesa redonda “Planos Diretores da Abrasco: Convergências e Caminhos para o Fortalecimento da Saúde Coletiva” e a sessão especial de lançamento oficial do Plano Diretor da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, reuniram coordenadoras das três áreas da Saúde Coletiva.
Coordenada pela vice-presidente da Abrasco Diana Anunciação (UFRB), com Roberta Gondim (ENSP/Fiocruz), Thaylla Varggas (Instituto Jovanna Baby) e Marina Maria (IFF/Fiocruz), a mesa redonda “Mulheres Negras, Reparação Histórica e Políticas de Saúde: Uma Agenda Possível ou Mera Captura e Discursos Vazios?” lotou o auditório Vitória Régia do CCA com expressiva presença feminina. Os debates evidenciaram como o racismo ainda estrutura práticas, instituições e relações no campo da saúde, reafirmando a urgência de ocupar e transformar os espaços de produção e socialização do conhecimento. As discussões destacaram a importância de uma agenda verdadeiramente antirracista, que inclua mulheres trans e travestis e denuncie as violações de direitos humanos vividas por mulheres negras grávidas e puérperas em situação de cárcere. Também foi ressaltada a importância da presença de mulheres brancas antirracistas dispostas a produzir conhecimento a partir de seus próprios lugares, reconhecendo os privilégios e rompendo com o pacto da branquitude. A conversa reforçou que o enfrentamento ao racismo não pode ser responsabilidade apenas das pessoas negras, exigindo implicação, deslocamento e compromisso coletivo com a transformação das estruturas que sustentam as desigualdades.
Os principais eixos temáticos que atravessam o congresso. A questão climática e dos territórios foi o tema mais recorrente, presente em 8 mesas redondas, que discutiram desde a gestão de riscos climáticos e socioambientais até os efeitos das mudanças climáticas sobre a saúde mental, a saúde indígena e a atenção primária. Em seguida, apareceram 5 mesas dedicadas a racismo, gênero e interseccionalidade, e outras 5 voltadas à institucionalização e à formação em Saúde Coletiva, com debates sobre a regulamentação da profissão de sanitarista, os planos diretores da área e o diálogo entre os fóruns de graduação e pós-graduação.
O tema também perpassou a mesa redonda “Racismo, Justiça Climática e Justiça Reprodutiva: Confluências e Perspectivas na Saúde Coletiva”, que discutiu como os eventos climáticos extremos impactam a vida das mulheres e se combinam com as violências baseadas em gênero. Além disso, os avanços e retrocessos da agenda dos direitos sexuais e reprodutivos foi tema da conversa, incluindo o acesso a métodos contraceptivos de longa duração. Segundo Emanuelle Goes, o debate reuniu contribuições relevantes sobre a atualidade das mudanças climáticas e seus efeitos sobre esses direitos.
A sessão de comunicação oral “Equidade, Acessibilidade e Reconhecimento das Diferenças”, coordenada por Fernanda Maciel, do GT Deficiência e Acessibilidade da Abrasco, discutiu como questionar o sistema de capacidade corporal compulsória para ampliar as concepções de saúde, corpo, sexualidade e cuidado no SUS, além de apresentar experiências de estratégias de acessibilidade produzidas com pessoas com deficiência.
Na sequência, a mesa redonda “Deficiência, Território e Justiça Climática” apresentou dados demográficos sobre a população com deficiência e a população indígena com deficiência no território amazônico, em diálogo com o relato de uma mulher indígena com deficiência e a noção de território líquido. Segundo Fernanda Maciel, a mesa se debruçou sobre como agir diante desse cenário em um contexto de mudanças climáticas, uma questão de difícil resposta, mas que encontra ressonância nos povos originários, que têm muito a ensinar sobre o tema.
Na Tenda-Maloca Paulo Freire, espaço dedicado a corpos, territórios e ancestralidades, a quinta-feira reuniu a mística de abertura, conduzida por Anacleto Tucano, Ivan Tucano e João Paulo Tucano, do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi; o Encontro de Saberes e Práticas Populares sobre medicinas indígenas; o lançamento do produto técnico “Guia de Vigilância Popular em Saúde e Emergências Climáticas”; uma roda de análise de conjuntura sobre educação popular em saúde no contexto nacional; a experienciação cultural de cenopoesia; e o cortejo “Primavera da Saúde”, com a participação de movimentos como o Movimento dos Atingidos por Barragens, o Movimento de Mulheres Camponesas, o Movimento Nacional da População de Rua, a Rede Unida, o Cebes e o Conselho Nacional de Saúde. Na Maloca de Cuidados, o dia foi dedicado exclusivamente ao público indígena, com abertura e ritual de proteção e cura pela manhã, a oficina “Cuidando do Cuidador” e um ritual de encerramento no fim da tarde. No intervalo do almoço, o grupo Maracatu Pedra Encantada fez um corteja e se apresentou na Praça de Alimentação.
À noite, o Grande Debate “Democracia e Salvaguarda dos Territórios no Brasil: Desafios em Tempos de Crises Globais e Ataques à Soberania dos Povos” encerrou o dia retomando esse fio condutor da crise climática e a perspectiva territorial.



























