NOTÍCIAS 

“As fronteiras nos definem, mas também nos atrapalham a voar”: mesa reúne os três planos diretores da Abrasco e lança oficialmente o Plano Diretor de CSHS

A manhã do segundo dia de congresso (17) reuniu, na plenária principal do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), cerca de 100 pessoas para a Mesa Redonda Planos Diretores da Abrasco: Convergências e Caminhos para o Fortalecimento da Saúde Coletiva (MR63), seguida da Sessão Especial de Lançamento Oficial do Plano Diretor da Comissão CSHS (SE02). Mediada pela vice-presidente da Abrasco Carmem Leitão, a mesa reuniu pela primeira vez, num mesmo painel, representantes dos planos diretores das áreas Ciências Sociais e Humanas em Saúde, Política, Planejamento e Gestão da Saúdes para dialogar sobre seus planos e pensar a continuidade do trabalho do campo. “Pela primeira vez, as três áreas convergiram em seus tempos e estratégias para pensar a Saúde Coletiva de forma conjunta. Esta é uma conquista histórica para a Abrasco”, comentou o presidente da Associação, Rômulo Paes.

Carmem Leitão, vice-presidente da Abrasco, abriu a mesa destacando os momentos distintos das trajetórias de planejamento das áreas: a Epidemiologia, com tradição mais longa de planejamento desde 1989, chegava ao seu quinto plano diretor; as Ciências Sociais e Humanas em Saúde, que também vêm construindo planos a cada gestão da comissão desde 1997; e a área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde, tendo recentemente lançando o seu primeiro Plano Diretor. Para ela, a diferença de frequência entre os planos não significa que as áreas tenham deixado de ter outras estratégias de desenvolvimento ao longo do tempo, mas esse momento específico de convergência é visto como crucial para a possibilidade de se criar algo valioso para o campo.

Tania Araújo (UEFS) começou lembrando que, em junho, ainda em Manaus, a Comissão de Epidemiologia realizou uma oficina para desenhar as ações estratégicas de implementação do próprio plano, hoje na reta final de redação e prestes a ser divulgado. Segundo ela, a identidade da Epidemiologia expressa no plano é plural e vem se afastando de uma visão do campo dirigida predominantemente pela estatística. Neste sentido, Tania listou os pontos de intersecção que identificou entre os três planos diretores, sendo alguns deles: as desigualdades regionais na distribuição de recursos; a fragmentação da pós-graduação em áreas de concentração muito estanques; os desafios trazidos pela inteligência artificial, que exigem uma abordagem crítica sobre vieses, desigualdade de acesso e impactos sobre a autonomia; a dificuldade de traduzir o conhecimento científico para a sociedade, que ela descreve como um problema não só linguístico, mas também epistemológico e político; a instabilidade do financiamento à ciência; e o acesso ainda restrito a bases de dados governamentais, o que limita a produção de evidências para políticas públicas.

Tatiana Wargas, coordenadora da Comissão de PPGS ao lado de Marília Louvison, contou que a construção do Plano Diretor da área levou cerca de 40 meses e mobilizou mais de 200 pessoas, entre integrantes da própria Comissão e de instâncias parceiras como Fóruns de Graduação, Residência e Pós-Graduação e a Rede ABS. Ela recuperou uma avaliação da ex-coordenadora da Comissão, Ana Luísa Biala, para quem a área nunca tinha tido um plano diretor até então porque estava sempre ocupada disputando espaço na política pública, “não dava tempo de ainda organizar isso tudo”. Para Tatiana, “a nossa intenção não é necessariamente o desenvolvimento de uma área, mas o envolvimento de uma área. E esse foi um movimento que fizemos quando tivemos pessoas de outras áreas nas nossas oficinas e fortalecendo as pessoas internamente para conseguirmos dar esse passo”, concluiu.

Henrique Saldanha, coordenador da Comissão CSHS, detalhou a metodologia de construção do 6º Plano Diretor da área dois anos de trabalho. Ele leu um trecho do texto de apresentação do Eixo 1 do Plano, dedicado à identidade da área: “somos uma área da saúde coletiva que insiste em lembrar que toda questão de saúde é também uma questão da sociedade […] nosso compromisso é ampliar possibilidades de vida, fortalecer a democracia, valorizar a pluralidade de saberes e construir respostas socialmente justas para os desafios contemporâneos de saúde em geral”. Saldanha fez ainda uma autocrítica pública: ao ler os três planos em conjunto, percebeu que o texto da área de Ciências Sociais e Humanas menciona o SUS com menos força do que os planos de Epidemiologia e de PPGS, um ponto que pretende reforçar na revisão final do documento.

Ainda em uma leitura comparativa, Henrique apontou a formação como a principal convergência entre eles, um desafio agravado pelo fato de a formação em saúde no Brasil ser majoritariamente privada, o que torna incerto o que de fato se ensina como Saúde Coletiva nesses cursos. Ele destacou a importância do encontro entre as comissões “a gente não pode deixar que esse processo gere uma disputa interna no campo pelos poucos recursos que a gente articula”.

Lançamento oficial detalha os seis eixos do Plano Diretor da Comissão CSHS

Em seguida, teve início a Sessão Especial de lançamento oficial do Plano Diretor da Comissão CSHS. Rômulo Paes apontou três razões para o Plano ter se tornado inadiável neste momento: o crescimento excepcional do subcampo, hoje o que mais cresce na Saúde Coletiva; a complexidade de temas transversais como clima, violência e desigualdades, que não cabem em abordagens setorizadas e exigem o aporte das Ciências Sociais; e a diversificação de quem ingressa nos Programas de Pós-Graduação a partir de políticas de inclusão social, hoje novamente ameaçadas e desafiadas a demonstrar seu valor.

Na ocasião, Henrique Saldanha retomou a trajetória de dois anos de elaboração do Plano Diretor, processo que mobilizou entre 100 e 150 pessoas em diferentes momentos. O Plano parte do diagnóstico de que as Ciências Sociais e Humanas em Saúde oferecem ferramentas teóricas e metodológicas fundamentais para compreender a determinação social da saúde, mas enfrentam obstáculos persistentes de consolidação institucional e reconhecimento acadêmico. Desse diagnóstico nasceram cinco blocos de problemas, desdobrados em 33 problemas específicos, reorganizados em seis eixos estruturantes, dos quais o de formação e currículo é o maior, com 15 linhas de ação, incluindo uma dedicada à formação para o uso crítico de inteligência artificial em saúde. Um eixo inteiramente novo, sobre desigualdades regionais e injustiça epistêmica, nasceu da constatação de que a produção, a circulação e o financiamento do conhecimento em Ciências Sociais e Humanas em Saúde ainda são desiguais entre as regiões do país.

Para colocar o Plano em prática, Henrique identificou mais de 50 atores que precisarão ser mobilizados, da própria Comissão à diretoria da Abrasco, passando por instâncias externas como o Conselho Nacional de Saúde, o Conselho Nacional de Educação e movimentos sociais. Ele deixou como tarefa para a nova gestão da Comissão priorizar, entre as 113 ações do documento, o que é urgência de curto prazo e o que são agendas permanentes. Ao encerrar a apresentação, fez questão de demarcar o que considera essencial sobre a natureza do documento: “não se tratava de um plano de trabalho da comissão nos próximos três anos. Se trata de um plano para desenvolver a nossa área, a área de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, que contribuem para desenvolver a Saúde Coletiva como um todo”.

Aylene Bousquat lembrou que a área nasceu decolonial e Sul-Sul, dialogando desde o início com autores do Sul Global sem deixar de dialogar também com os melhores autores do Norte. Recuperando um texto de Ivan Illich de 1973 sobre a obrigação moral de libertar o futuro para as próximas gerações, ela defendeu que a complexidade do mundo atual torna essa obrigação ainda mais urgente, e que respondê-la exige necessariamente o aporte das Ciências Sociais. Ela nomeou ainda uma tensão que considera central para os três planos diretores: a de que fronteiras disciplinares dão identidade às áreas, mas também podem limitar a compreensão de objetos complexos. “As fronteiras nos definem, mas as fronteiras também nos atrapalham a voar”, disse, propondo pensar o método e a teoria crítica como âncoras que permitem justamente esse voo.

Leny Trad defendeu que é preciso reconhecer as conquistas do Plano Diretor sem se acomodar com elas, numa luta que ela descreve como contínua. Segundo ela, os planos anteriores concentravam-se historicamente em poucas lideranças do eixo Rio-São Paulo, um cenário que vem sendo corrigido nos últimos anos. Ela também observa uma mudança de foco: de uma disputa mais interna, voltada a garantir reconhecimento e espaço para a área, para um plano que hoje aponta mais concretamente para o diálogo com a sociedade. Por fim, Leny questionou a curta vigência de três anos do documento, defendendo que um plano diretor deveria funcionar mais como uma política de Estado do que uma política de governo, que não se esgota a cada nova gestão da Comissão.

Saiba mais

Associe-se à ABRASCO

Ser um associado (a) Abrasco, ou Abrasquiano(a), é apoiar a Saúde Coletiva como área de conhecimento, mas também compartilhar dos princípios da saúde como processo social, da participação como radicalização democrática e da ampliação dos direitos dos cidadãos. São esses princípios da Saúde Coletiva que também inspiram a Reforma Sanitária e o Sistema Único de Saúde, o SUS.