
Geógrafo, escritor, cientista, jornalista, advogado e professor universitário, Milton Santos foi um dos maiores intelectuais brasileiros e uma referência mundial do pensamento crítico. Único geógrafo do hemisfério Sul a receber o Prêmio Vautrin Lud, sua obra contribuiu para repensar o espaço geográfico, a urbanização, as desigualdades e os processos de globalização, influenciando diferentes campos do conhecimento.
As reflexões do intelectual baiano também dialogam com a Saúde Coletiva. Em 1999, Milton Santos participou do 2º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), promovido pela Abrasco, integrando a mesa-redonda “Comunicação e Redes de Poder em Saúde”, ao lado de Nilson Alves de Moraes, Ana Clara Torres (UFRJ) e Victor Valla (Fiocruz). No ano seguinte, participou do 1º Seminário Nacional Saúde e Ambiente no Processo de Desenvolvimento, organizado pela Fiocruz.
Em sua conferência, posteriormente publicada na Revista Ciência & Saúde Coletiva, Milton Santos apresentou reflexões sobre ciência, técnica, desigualdades e dignidade humana que permanecem atuais diante dos desafios contemporâneos. No ano em que o intelectual completaria 100 anos, a Abrasco relembra cinco lições presentes em sua obra e em suas falas.
1. Ser da saúde é cultivar a utopia
Para Milton Santos, os profissionais que atuam no campo da saúde estão entre aqueles que mais se dedicam à utopia, uma vez que trabalham em favor do bem-estar e da dignidade da vida humana. Mais do que um ideal abstrato, a utopia aparece como horizonte ético para a construção de uma sociedade mais justa.
“As mulheres e os homens que se ocupam da questão da saúde são, possivelmente, entre todos nós, aqueles que mais claramente se devotam à utopia, uma vez que cuidam do bem-estar e da dignidade da vida humana.”
2. Saúde é dignidade
O geógrafo compreendia a saúde como uma das mais importantes quetões da humanidade. Em suas palavras, a busca por uma vida mais longa esteve associada ao esforço por torná-la também mais digna, em um encontro entre preocupações científicas e valores morais.
“A área da saúde é responsável por um belo momento da história da humanidade, que buscou alicerçar as condições pelas quais a vida se tornaria não apenas mais longa, mas também mais digna de viver. Essa busca de possibilidades da medicina se baseou numa ciência em que houve um encontro entre preocupações morais e preocupações científicas.”
3. Olhar a saúde além da técnica
Embora reconhecesse a importância da ciência e da técnica, Milton Santos alertava para os riscos de uma visão excessivamente pragmática. Para ele, a saúde também precisa ser pensada do ponto de vista filosófico, considerando suas causas, implicações e dimensões humanas.
“Esses progressos da ciência e da técnica estimularam a produção pragmática, ou seja, vamos fazer assim para obter tal resultado. A tal ponto isso se generalizou que as formulações ditas gerais começam do resultado e não das causas, o que é sempre um empobrecimento do pensamento.”
4. Recusar o colonialismo e as desigualdades como destino
Milton Santos criticou explicações racistas e deterministas que naturalizam a fome, a pobreza e as desigualdades entre povos e regiões. Sua obra reafirma que a injustiça social não é um destino inevitável, mas resultado de processos históricos e políticos passíveis de transformação.
“Critiquei a dicotomia racista e preconceituosa que considerava normal e evidente que os europeus se organizassem inteligentemente e nós, naturalmente, em parte por culpa de nossa tropicalidade e em parte devido à nossa precariedade intelectual, não poderíamos ultrapassar nossos limites.”
5. Compreender os riscos da mercantilização dos serviços essenciais
Ao refletir sobre as cidades e a expansão do poder econômico, o intelectual chamou atenção para os limites de soluções guiadas exclusivamente pelo mercado. Quando as necessidades humanas são subordinadas à lógica financeira, advertia, os impactos recaem principalmente sobre aqueles que não podem pagar.
“No mundo em que a cidade, tendo crescido de tamanho, tem nas empresas filiadas aos grandes bancos a solução para as questões urbanas, na medida em que são cegos para a vida social e para as questões humanitárias, os problemas vão se avolumar contra os que não podem pagar.”
Mais de duas décadas após essas reflexões, o pensamento de Milton Santos continua oferecendo contribuições valiosas para a Saúde Coletiva.
Em seu centenário, revisitar sua obra é também reafirmar a defesa da saúde como direito, da dignidade humana e da construção de sociedades menos desiguais.


