A ativista socioambiental Angela Mendes, integrante do Comitê Chico Mendes, foi a conferencista inaugural do 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (CSHS), realizada nesta quarta-feira (16), às 19h, em Manaus (AM). No Auditório Eulálio Chaves, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), a palestra marcou o início da programação científica do Congresso e trouxe ao centro do debate questões relacionadas aos territórios, aos povos da floresta e aos desafios contemporâneos.
Realizado pela Abrasco, em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), a Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e o Instituto Leônidas e Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), o 10º CSHS segue até 19 de setembro com o tema “Interculturalidade, Ambiente e Saúde: os desafios do século XXI para uma vida em conexão com os territórios”. A Conferência de Abertura, realizada após a cerimônia oficial, deu início a quatro dias de debates sobre questões contemporâneas que atravessam as Ciências Sociais e Humanas em Saúde e a Saúde Coletiva brasileira.
Angela Mendes iniciou a Conferência de Abertura homenageando os mais de 700 mil brasileiros e brasileiras vítimas da pandemia de Covid-19 e reforçou a importância da luta política e da mobilização. A conferencista celebrou ainda o fato de o 10º CSHS ser o primeiro congresso realizado pela Abrasco na Região Norte.
Na sequência, tomando como ponto de partida o tema do 10º CSHS, Angela fez uma série de apontamentos sobre a interculturalidade e a necessidade de ampliar conceitos e práticas, considerando os saberes tradicionais. Para Mendes, é preciso olhar não para o que a ciência tem a dizer sobre a Amazônia, mas, sim, para o que a Amazônia tem a ensinar à ciência. A primeira reflexão proposta pela ativista provocou o público a enxergar outras dimensões da saúde, como a sensação de pertencimento.
“Talvez a saúde comece na água que bebemos, na comida que chega à nossa mesa, no ar que respiramos, na casa onde vivemos e na possibilidade de viver com dignidade. Talvez comece na existência de uma comunidade, na possibilidade de trabalhar, circular pelo território com segurança, de criar os filhos, cuidar dos idosos, contar nossa história e transmitir conhecimentos para as próximas gerações”, explicou.
Angela Mendes também mencionou os desafios de pensar o cuidado, considerando as rápidas mudanças sociais e o que chamou de perda de conexão das pessoas com a vida. A pensadora destacou a centralidade do conceito de território, que não pode ser dissociado dos debates no âmbito da saúde e precisa ser ampliado no campo da Saúde Coletiva.
“Território é onde a vida acontece. É onde as pessoas trabalham, aprendem, produzem alimento, constroem relações, criam seus filhos, enterram seus mortos, celebram seus vivos e constroem sua memória. Onde se aprende o tempo da chuva, o caminho do rio, a época da pesca e os ciclos da floresta. Por isso, território é espaço físico, mas é também memória, identidade, cultura, trabalho, afeto, conflito e resistência”, detalhou.
Por fim, a conferencista defendeu que não é possível pensar em justiça social sem considerar a justiça climática e afirmou que a ciência não pode olhar os territórios apenas como os locais onde os problemas acontecem, já que as soluções também emergem dos territórios. Angela também lembrou a importância da participação social para o campo da Saúde Coletiva.
“Não existe Saúde Coletiva sem participação social. A saúde não pode ser construída apenas por especialistas falando sobre as pessoas, precisa ser construída com as pessoas e isso significa dividir poder, significa reconhecer que uma comunidade tem direito de participar das decisões que afetam sua vida”, concluiu.
O 10º CSHS continua até sábado (19), na UFAM, com diversas atividades na programação.
Assista à íntegra da Conferência de Abertura:





