O primeiro encontro nacional de 2026 do Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Abrasco reuniu mais de 140 pessoas na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, nos dias 14 e 15 de maio. Painéis e debates sobre o campo da Saúde Coletiva, fortalecimento dos periódicos da área, com ênfase na promoção da diversidade na publicação científica, foram destaque. Representantes da área de Saúde Coletiva na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) também aproveitaram a ocasião para apresentar os critérios da próxima avaliação quadrienal (2025-2028).
O Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Abrasco reúne todos os programas da área de Saúde Coletiva na CAPES para promover a reflexão e compartilhamento de experiências e demandas relativas à formação e ensino. Além de atividades permanentes, são realizados dois encontros nacionais por ano.
O presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, avalia que as atividades desenvolvidas no âmbito do Fórum, especialmente os encontros nacionais, são fundamentais para a atuação da Abrasco. “Esse encontro traz os aspectos mais fundamentais para o funcionamento da Abrasco: suas revistas, programas de pós-graduação e seus planos diretores. Podemos refletir e contribuir com avanços para o Brasil”, declarou.
O Encontro também foi uma oportunidade para as áreas da Saúde Coletiva – Epidemiologia; Política, Planejamento e Gestão; e Ciências Sociais e Humanas em Saúde – apresentarem os avanços na construção ou aprimoramento de seus planos diretores, documentos estratégicos com diretrizes para a atuação profissional, pesquisa e ensino. A programação também contou com atividades para programas de pós-graduação compartilharem experiências.
Para a vice-reitora da UFMG e anfitriã do evento, Alamanda Kfoury Pereira, essa articulação e cooperação entre programas é inspiradora para outras áreas de conhecimento. “Esse Fórum é estratégico de produção de uma ciência estratégica ao nosso país. Vocês inspiram outros programas de pós-graduação ao fazer um trabalho colaborativo”, afirmou.
Avaliação quadrienal (2025-2028): impacto social e colaboração
Durante o encontro, a coordenadora adjunta para programas acadêmicos da área na CAPES, Aylene Bousquat – que assumirá a coordenação geral, apresentou os elementos da Ficha de Avaliação para o quadriênio 2025-2028. Participaram da mesa-redonda o professor Bernardo Horta, que permanece na coordenação da Área até junho; o professor Alberto Novaes, que permanece à frente da Coordenação adjunta de Programas Profissionais; e a pesquisadora Suely Deslandes, futura coordenadora adjunta de programas acadêmicos e na moderação Antônio Rodrigues Ferreira, coordenador do Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação.
Três eixos serão considerados para a próxima avaliação: a) organização e funcionamento dos programas; b) formação e produção intelectual; e c) o impacto social dos programas. Haverá maior ênfase no detalhamento do planejamento estratégico, coerência e consistência da proposta, bem como na colaboração entre alunos e professores, como detalha Aylene Bousquat. “Estamos promovendo o trabalho com o coletivo. O nosso grande objetivo é o impacto social e a formação da próxima geração de trabalhadores e pesquisadores qualificados na área da Saúde Coletiva”, explicou.
Além disso, a próxima avaliação não considerará o quantitativo das produções, mas sim uma seleção qualificada dos produtos de cada programa. Livros, dossiês, relatórios e produtos que dialogam com a sociedade serão valorizados, assim como a promoção da Ciência Aberta, integridade científica e colaboração entre pares.
Será necessário também destacar qual o impacto e visibilidade do programa, não apenas por indicadores quantitativos, mas pela capacidade de pautar debates públicos, contribuir com políticas públicas e dialogar com outros públicos.
Políticas editoriais: diversidade e inclusão
A programação do Encontro contou ainda com um painel sobre as políticas editoriais na Saúde Coletiva, atividade mediada pelos coordenadores do Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação, Carla Pacheco e André Machado. A primeira painelista a fazer as considerações foi a editora da revista Cadernos de Saúde Pública, Suely Deslandes.
A pesquisadora elencou durante sua fala desafios para os periódicos brasileiros, como a falta de apoio técnico e financeiro. Deslandes abordou ainda a “crise da revisão por pares”, processo avaliativo de trabalhos por especialistas da área, que enfrenta dificuldades em função do aumento desenfreado do número de artigos científicos submetidos (produtivismo) e a sobrecarga de trabalho dos avaliadores, chamados de pareceristas.
“Em consequência do produtivismo, não conseguimos ter um número de revisores equivalentes. Ainda mais porque ser parecerista não retorna como capital acadêmico. Trabalha-se na lógica da dádiva, sendo que essa atividade é um trabalho. É preciso reconhecer o esforço para dar pareceres qualificados”, enunciou.
A editora apresentou ainda um levantamento que evidencia a desigualdade regional na produção científica da área, com o maior número de artigos publicados e editores concentrados em instituições de ensino e pesquisa do Sudeste.
Na sequência, a coordenadora do Fórum de Editores de Saúde Coletiva da Abrasco, Angélica Ferreira Fonseca, tratou das ações para ampliar a diversidade e inclusão nas revistas científicas da área, que se fazem fundamentais, segundo a professora, para o fortalecimento dos periódicos nacionais. “É preciso refletir sobre de qual forma nós podemos atuar mais na promoção de estratégias e definições de ação que gerem mais diversidade e inclusão no âmbito da publicação científica”, concluiu.
A pesquisadora apresentou, então, a iniciativa do Fórum de Editores de lançar quatro produtos para apoiar a escrita e publicação de artigos: o Vocabulário da Saúde Coletiva, que reúne 1.071 termos com o objetivo de facilitar a tradução de textos científicos; o Guia Introdutório de Dados de Pesquisa, que apresenta orientações e boas práticas sobre dados de pesquisa; a série de vídeos O artigo científico em foco, com dicas e estratégias para publicação; e o documento Publicação Científica: reflexões críticas e orientações práticas. Todos os materiais estão disponíveis gratuitamente.
+++ Saiba mais sobre essa iniciativa
Planos diretores: direcionamento estratégico e articulação
O Encontro Nacional também congregou em um painel, representantes das três comissões da Abrasco – Epidemiologia; Política, Planejamento e Gestão da Saúde; e Ciências Sociais e Humanas em Saúde – para debater sobre a atual situação da Saúde Coletiva, identidade e proposições para fortalecer o campo. Na ocasião, cada painelista apresentou o processo para construir ou aprimorar os planos diretores de cada área, painel mediado por mediado por Catharina Leite Matos Soares, coordenadora do Fórum de Coordenadores de Pós-Graduação
Integrante da Comissão de Epidemiologia da Abrasco, Enirtes Caetano, apresentou o 5º Plano Diretor para o desenvolvimento da Epidemiologia no Brasil. O documento é fruto do trabalho desenvolvido desde 2022 por diversos profissionais do campo, pela Comissão e pelo Ministério da Saúde, através do apoio e contribuições da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA). O Plano servirá tanto para orientar a formação acadêmica, quanto diretrizes para a atuação dos profissionais do campo no país de 2025 a 2029.
Caetano enfatizou a necessidade de pensar planos diretores que incorporem elementos de tradução pedagógica e integração do conhecimento produzido na área com a população e redes de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS). “Envolver a comunidade, os movimentos sociais, e pensar na ideia de uma curricularização da extensão e uma maior integração com redes de atenção ao SUS, articulados no enfrentamento a tudo aquilo que envolve as desigualdades em saúde”, registrou.
A área de Política, Planejamento e Gestão concluiu seu primeiro Plano Diretor. A coordenadora da Comissão da área na Abrasco, Tatiana Vargas, celebrou a elaboração do documento, que considera três eixos: ensino e formação; pesquisa e articulação com a sociedade; e políticas públicas.
“Um plano construído para pensar e agir melhor. Entender como nos posicionamos neste atual cenário, muito complexo, com fatores políticos, econômicos, mudanças globais. É importante para exercitar a nossa capacidade de compreender como esses elementos nos atravessam”, detalhou.
O coordenador da Comissão de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, Henrique Saldanha, também apresentou o plano de trabalho para elaboração do 6º Plano Diretor da área, que possui enfoques específicos na pluralidade e diversidade.
“Esse plano diretor é construído com base na historicidade do processo; que considera os diferentes documentos construídos ao longo dos últimos 40 anos da Comissão e avaliando criticamente o que foi feito, e busca ser uma construção participativa, com pluralidade nos diálogos e participação de atores de diferentes regiões”, contextualizou.
Próximo Encontro Nacional: Manaus, AM
A segunda edição de 2026 do Encontro Nacional do Fórum de Coordenadores de Pós-graduação em Saúde Coletiva da Abrasco acontecerá em Manaus, no Amazonas, nos dias anteriores ao 10º Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde (10º CSHS).







