
José Leopoldo Ferreira Antunes, professor titular e ex-diretor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), e Marco Aurelio de Anselmo Peres, professor da Duke-NUS Medical School, de Singapura, assumiram juntos a Editoria-Chefe do International Journal of Epidemiology (IJE). Publicada pela Oxford University Press e mantida pela International Epidemiological Association (IEA), a revista é classificada como Qualis A1 pela CAPES em Saúde Coletiva, com fator de impacto de 5,9, entre os mais altos da Epidemiologia mundial. O cargo é tradicionalmente exercido por uma dupla de pesquisadores e, desde a sua fundação em 1972, é a primeira vez que a revista tem editores-chefes que não são do contexto anglo-saxão. “É um motivo de muita satisfação assumir essa posição numa das revistas mais importantes do campo internacionalmente”, celebra Marco Peres. “Acho que esse tipo de notícia deveria aumentar a nossa autoestima. Nós, epidemiologistas brasileiros”, disse Antunes à Abrasco.
A chegada dos dois à liderança da mais influente revista da Epidemiologia mundial é fruto de uma trajetória. Antunes aponta que sua experiência prévia na Revista de Saúde Pública, da qual também foi editor, sua atuação na direção da FSP-USP e sua relação com a Abrasco e com a IEA foram determinantes para a indicação. “Esta é uma ocupação de quem vem de longa carreira, com experiências que valorizam a Epidemiologia no Brasil e fora dele”, refletiu. Os dois substituem os Profs. Stephen Leeder e Alistair Woodward, respectivamente da Austrália e da Nova Zelândia.
Para ele, a atuação da Abrasco também influencia essa equação: “Os congressos da Abrasco, com grande participação de jovens, estudantes e do meio profissional, não apenas acadêmico, não é algo comum. O modo como quem está nas secretarias municipais, estaduais e no Ministério tomam a Abrasco é muito comentado no contexto internacional”. O pesquisador lembra que o Congresso Mundial de Epidemiologia de 2008, sediado no Brasil, foi o maior da história da área. “Nossa tradição de participação é motivo de orgulho”, celebra, entendendo que a nova posição é também fruto dessa construção de tradição ativa e coletiva.
Para Peres, esta é uma oportunidade ímpar de fazer uma transformação de um lugar de prestígio em escala global. “Nós queremos manter a qualidade da revista, do ponto de vista da relevância para a Saúde Pública, da solidez metodológica e da afinidade com os temas contemporâneos com a igualdade e amplitude global”, promete.

Uma grande responsabilidade
A proposta é provocar uma ampliação do debate em Saúde Pública, mobilizando mudanças na editoria da revista. “Em coerência com as ideias da IEA, nós queremos tornar a revista realmente global. E isso significa uma representação expressiva do Sul Global, que já começa por nossa presença, e que queremos ampliar para uma distribuição geográfica mais equânime, publicando bastante trabalhos de autorias da América Latina, Ásia, Caribe, África”, explica Marco Peres. “Estamos com uma expectativa muito grande e uma responsabilidade muito grande também”.
“Queremos influenciar a agenda global sobre as emergências globais, a saúde global, o enfrentamento das pandemias que certamente virão no futuro, as desigualdades em saúde, os desafios da epidemiologia para a utilização do conhecimento produzido em políticas públicas. Para isso, estamos mudando significativamente o corpo editorial, para envolver um grupo grande de mulheres e jovens, fazendo frente ao desequilíbrio de gênero e idade que tínhamos”, diz Peres à Abrasco sobre as altas expectativas da dupla.
“Entendo que o novo cargo tem a responsabilidade de ampliar a comunicação de evidências sobre os desafios de saúde nas regiões e países menos representados, justamente aqueles que sofrem uma carga mais elevada de doenças, e pautar o debate sobre a agenda de prioridades para a pesquisa epidemiológica”, disse Antunes em entrevista para o site da FSP-USP.
A função envolve orientar a comunidade científica quanto às prioridades de pesquisa, supervisionar a avaliação por pares e garantir o rigor metodológico da publicação. “A principal responsabilidade dos editores-chefes é garantir a qualidade científica e a integridade editorial do que é publicado”, explicou Antunes à FSP-USP. À Abrasco, ele detalhou a escala do trabalho: a revista recebe cerca de 50 artigos por semana, publica 20 por bimestre em 6 edições anuais e conta com 50 editores associados especializados em diferentes áreas para processar esse volume. “É um contexto institucional muito complexo, que contempla os mais diversos campos da pesquisa em Epidemiologia”, disse. A dupla ficará no cargo por pelo menos três anos, com possibilidade de renovação por mais dois mandatos.
“Queremos contribuir para o avanço da epidemiologia por meio de um trabalho editorial consistente e alinhado às necessidades da comunidade científica internacional”, completou Leopoldo Antunes. “A partir de julho assumimos totalmente e temos pensado sobre visibilidade nas mídias sociais, que também é uma questão contemporânea. Pretendemos manter o rigor do processo editorial com o máximo de inclusão”, finalizou Marco Peres.


