
O presidente da Abrasco, Rômulo Paes de Sousa, abordou a necessidade de atualizar a agenda do Sistema Único de Saúde (SUS) para responder às transformações demográficas, sociais, econômicas e ambientais vividas pelo Brasil nas últimas décadas. A avaliação foi apresentada durante a conferência “Desafios do SUS para a soberania e inclusão”, realizada na última sexta-feira (31), como parte da programação da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).
Ao refletir sobre a trajetória do SUS, Rômulo Paes de Sousa destacou que o sistema foi concebido no contexto da redemocratização brasileira como resposta ao profundo déficit social acumulado pelo país. Quase quatro décadas depois, porém, o Brasil passou por intensas transformações demográficas, epidemiológicas e sociais, o que exige atenção. “O SUS brota nesse momento de redemocratização para responder ao Brasil daquele período. Mas esse Brasil é muito diferente do Brasil de hoje. Por isso, precisamos atualizar a nossa agenda”, afirmou.
Segundo o presidente da Abrasco, entre as mudanças mais significativas estão a rápida transição demográfica, o envelhecimento da população e a persistência de desigualdades estruturais que continuam determinando diferentes condições de vida, adoecimento e acesso aos serviços públicos. Para o pesquisador, esses fatores exigem uma reorganização das políticas públicas.
“O nosso grande problema continua sendo a desigualdade. O Brasil é menos desigual do que já foi, mas ainda é brutalmente desigual. Organizar serviços para enfrentar essas desigualdades é muito mais complexo do que apenas ampliar políticas de transferência de renda”, destacou.
Ao longo da conferência, Rômulo argumentou que os desafios contemporâneos extrapolam o setor saúde e exigem respostas articuladas entre diferentes políticas públicas. Mudanças climáticas, violência, envelhecimento populacional, emergências sanitárias e o cuidado à população em situação de rua foram apontados como exemplos de problemas complexos que demandam modelos integrados de atuação do Estado.
O conferencista também chamou atenção para a necessidade de fortalecer a capacidade nacional de produzir conhecimento, tecnologias e insumos estratégicos para a saúde. Ao recordar os impactos da pandemia de Covid-19, ressaltou que a crise evidenciou a dependência global da produção industrial concentrada em poucos países e reforçou a importância da soberania científica e tecnológica para a garantia do direito à saúde.
“Nós precisamos atualizar nossa agenda, integrar os sistemas e fortalecer nossa capacidade de produzir tecnologia. A pandemia mostrou o quanto o mundo se tornou dependente da capacidade industrial concentrada em poucos países”, afirmou.
Outro aspecto destacado foi o papel da ciência na formulação das políticas públicas. Para Rômulo Paes, as evidências científicas são fundamentais para qualificar as decisões, mas precisam dialogar com outras dimensões que também influenciam a ação do Estado. Nesse sentido, defendeu que a produção do conhecimento deve estar comprometida com o debate público e com a construção democrática das políticas sociais.
Ao encerrar a conferência, o presidente da Abrasco reforçou que o fortalecimento do SUS passa pela capacidade de adaptar suas estratégias às novas demandas da sociedade brasileira, preservando seus princípios de universalidade, integralidade e equidade. Para o pesquisador, enfrentar os desafios contemporâneos requer integrar políticas públicas, reduzir desigualdades e ampliar a capacidade do país de produzir ciência, inovação e tecnologias voltadas às necessidades da população.


