
A equidade na ciência foi tema de uma mesa-redonda promovida pela Abrasco nesta quinta-feira (30), durante a programação da 78ª Reunião Anual da SBPC. A atividade reuniu especialistas para discutir os desafios e as ações necessárias para ampliar a inclusão na Saúde Coletiva e fortalecer a produção científica comprometida com a diversidade e a justiça social. O debate foi coordenado por Luanda Lima, secretária executiva adjunta da Abrasco, e contou com a participação de Estela Aquino (UFBA), Breno de Oliveira (UFAM) e Roberta Gondim (Fiocruz).
As três exposições partiram de diferentes perspectivas, mas convergiram na defesa de uma ciência comprometida com o enfrentamento das desigualdades estruturais. Racismo, sexismo, LGBTfobia e desigualdades de classe foram apontados como dimensões inseparáveis da produção do conhecimento e da formulação de políticas públicas em saúde.
Abrindo a mesa, Roberta Gondim refletiu sobre os desafios da equidade racial na Saúde Coletiva e defendeu que a agenda da inclusão seja acompanhada por ações reparatórias que envolvam não apenas o Estado, mas toda a sociedade.
Ao apresentar evidências sobre as condições de vida e saúde da população negra, a pesquisadora destacou que mulheres negras têm duas vezes mais chances de morrer por causas maternas do que mulheres brancas, segundo a pesquisa Nascer no Brasil 2. No município do Rio de Janeiro, acrescentou, a razão de mortalidade materna entre mulheres pretas é 4,5 vezes superior à registrada entre mulheres brancas.
As desigualdades também aparecem na educação e no mercado de trabalho. Roberta destacou que a taxa de analfabetismo entre mulheres negras é de 6,9%, enquanto entre mulheres brancas é de 3,4%. Segundo dados do Ipea apresentados pela pesquisadora, 30,6% das pessoas sem ensino fundamental completo são mulheres negras, frente a 18,9% de mulheres brancas. Já o acesso ao ensino superior completo alcança 14,7% das mulheres negras, enquanto entre mulheres brancas o percentual chega a 29%.
Mesmo quando conseguem concluir a graduação, as desigualdades persistem. Em 2020, 33,2% das mulheres negras com ensino superior ocupavam postos de trabalho que exigiam apenas ensino fundamental ou médio.
Ao discutir a permanência da colonialidade na ciência, Roberta defendeu que o campo da Saúde Coletiva reconheça o apagamento histórico de intelectuais negros e de diferentes matrizes de pensamento. “É preciso criar um constrangimento pedagógico e epistemológico. Se não fizermos isso, não vamos sair do lugar”, afirmou.
Na sequência, Breno de Oliveira Ferreira abordou a contribuição dos movimentos sociais para a resposta brasileira à epidemia de HIV e AIDS e para a construção das políticas públicas voltadas à população LGBTI+.
O pesquisador lembrou que a participação social foi decisiva para conquistas como a inclusão da pauta LGBTI+ no Conselho Nacional de Saúde e para o desenvolvimento de iniciativas de formação de profissionais voltadas às especificidades dessa população. Ao mesmo tempo, alertou para o risco de reduzir o cuidado às estratégias biomédicas, deixando em segundo plano a atuação comunitária construída historicamente pelos movimentos sociais.



Segundo Breno, questões relacionadas à identidade de gênero e à orientação sexual ainda ocupam um espaço periférico na formação em saúde. Para ele, esses conteúdos precisam integrar os currículos de forma permanente, considerando também as especificidades dos diferentes territórios brasileiros.
O pesquisador destacou ainda que a LGBTI+fobia não pode ser analisada isoladamente, pois se articula a outras desigualdades, como racismo, pobreza e etarismo, produzindo formas específicas de adoecimento. Também defendeu que as políticas públicas recuperem os princípios da solidariedade e da organização comunitária que marcaram a resposta à epidemia de HIV e AIDS.
“O lugar da Saúde Coletiva é importantíssimo na construção de uma ciência que avance para pensar o cuidado, mas que não perca aquilo que construímos na Reforma Sanitária. A solidariedade e a base comunitária precisam continuar orientando as políticas de saúde para a população LGBTI+”, afirmou.
Encerrando a mesa, Estela Maria Motta Lima Leão de Aquino discutiu o enfrentamento das desigualdades de gênero na ciência e ressaltou que não é possível analisar as relações de gênero sem considerar também raça e classe social.
A pesquisadora revisitou a trajetória da participação feminina na ciência brasileira, lembrando que as mulheres só passaram a ter acesso formal ao ensino superior no fim do século XIX e que as universidades foram historicamente estruturadas como espaços ocupados pelas elites. “Embora as mulheres tenham ampliado sua presença na produção científica, persistem barreiras relacionadas à progressão na carreira, à divisão sexual do trabalho e às responsabilidades de cuidado.”, afirma.
Estela destacou que essas desigualdades atingem de forma ainda mais intensa as mulheres negras, que permanecem na base da pirâmide social e enfrentam obstáculos adicionais para ingressar, permanecer e avançar na carreira acadêmica.
Ao abordar a trajetória da Saúde Coletiva, a pesquisadora lembrou que o campo nasceu fortemente influenciado pela análise das desigualdades de classe e que as discussões sobre gênero e raça ganharam força principalmente a partir da criação dos Grupos Temáticos da Abrasco, como o GT Gênero e Saúde, criado em 1995.
Como caminhos para promover maior equidade na ciência, Estela defendeu o fortalecimento de pesquisas com abordagem interseccional, políticas institucionais de cuidado, ampliação da oferta de creches e mecanismos de apoio à parentalidade, enfrentamento da violência e do assédio nas instituições acadêmicas e maior representatividade de mulheres e grupos historicamente excluídos nos espaços de decisão científica.
“Não podemos discutir gênero sem discutir raça e classe. Em um país como o Brasil, essas dimensões são inseparáveis.”, afirma a Estela.
Ao encerrar a atividade, Luanda Lima destacou que o debate reafirma um compromisso histórico da Abrasco com a produção de conhecimento voltada à transformação social. Segundo ela, pensar a equidade na ciência significa reconhecer as desigualdades que atravessam a sociedade brasileira e fortalecer uma Saúde Coletiva capaz de produzir respostas comprometidas com a justiça social, a diversidade e os direitos.

78° Reunião Anual da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência aconteceu na Universidade Federal Fluminense, em Niterói entre os dias 26 de julho e 01 de agosto de 2026.
Saiba mais em: sbpc.uff.br


