
Quatro décadas após a histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde, especialistas, pesquisadores e militantes da Saúde Coletiva se reuniram nesta quarta-feira (7), na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, para a mesa “Lutas da Saúde Coletiva: 40 anos em perspectiva”. A atividade integrou o ciclo de debates Da Reforma Sanitária ao SUS do Amanhã, promovido pelo Outra Saúde, ICICT/Fiocruz e instituições parceiras, e destacou os desafios contemporâneos para a defesa e o fortalecimento do SUS diante das transformações sociais, políticas e econômicas do país.
Com participação de Luiz Antonio Santini (CEE/Fiocruz), Paulo Amarante (LAPS-ENSP/Fiocruz) e Reinaldo Guimarães, vice-presidente da Abrasco, a mesa propôs uma reflexão crítica sobre os caminhos percorridos pela Saúde Coletiva desde a consolidação da Reforma Sanitária até os impasses atuais enfrentados pelo sistema público de saúde brasileiro.
Ao longo do debate, os palestrantes retomaram o legado político da 8ª Conferência Nacional de Saúde, considerada um marco na construção democrática do SUS, e discutiram a necessidade de atualizar estratégias de mobilização social e produção de conhecimento diante dos desafios contemporâneos. A presença de Reinaldo Guimarães reforçou o papel histórico da Abrasco na formulação e defesa das políticas públicas de saúde e na articulação entre pesquisa, formação e participação social.
Em sua intervenção, Guimarães propôs uma leitura histórica da Reforma Sanitária brasileira, destacando que o SUS deve ser compreendido como parte de um projeto mais amplo de transformação social. “O SUS é, de certa forma, uma metonímia da Reforma Sanitária. A parte passou a representar o todo”, afirmou.
Ao recuperar o contexto de emergência dessas ideias, o pesquisador ressaltou que a construção do SUS esteve profundamente vinculada ao processo de redemocratização do país. Segundo ele, o que viabilizou o capítulo da saúde na Constituição de 1988 foi sua articulação com a luta democrática, sintetizada no lema “Democracia e Saúde”. Essa convergência permitiu a formação de uma ampla frente política em defesa de um sistema universal, reunindo diferentes correntes ideológicas.
Guimarães também destacou que a formulação do SUS não se deu de forma isolada, mas resultou de um acúmulo histórico que envolveu tanto a produção acadêmica quanto a atuação de movimentos sociais e experiências institucionais no interior do Estado. Nesse processo, afirmou, não apenas se delineou uma política pública de saúde, mas também se consolidou o campo da Saúde Coletiva, responsável por reorganizar saberes e práticas no setor. Ao mesmo tempo, a proposta de universalidade representou uma ruptura com o modelo anterior de acesso restrito aos trabalhadores formais.
Ao fazer um balanço crítico dessa trajetória, Guimarães chamou atenção para as tensões entre o projeto original e sua implementação ao longo do tempo. “No dia seguinte à promulgação da Constituição, já se iniciava um movimento de desconstrução do SUS, que persiste até hoje”, afirmou, apontando para a necessidade de retomar e atualizar os fundamentos políticos que deram origem ao sistema.
Já Luiz Antonio Santini enfatizou o papel central da democracia no processo que levou à criação do SUS. “Naquele momento, a questão central do Brasil e do sistema de saúde era a questão democrática. A democracia era entendida como condição para transformar a saúde no país”, afirmou. Ele relembrou o ambiente de mobilização que marcou a 8ª Conferência, reunindo milhares de pessoas de diferentes regiões, e destacou seu caráter fundador para a participação social no Brasil.
Santini situou esse processo em uma trajetória histórica mais longa, marcada por debates e experiências que antecederam a Conferência. Segundo ele, a Reforma Sanitária foi resultado de um acúmulo que atravessou décadas, incluindo influências internacionais e projetos interrompidos pelo golpe de 1964, mas que permaneceram no imaginário coletivo. “Havia uma utopia em andamento, que não foi retirada do desejo das pessoas”, observou.
Ao projetar os desafios atuais, Santini alertou para riscos concretos enfrentados pelo SUS, especialmente no campo do financiamento. “O sistema é subfinanciado, e isso precisa ser enfrentado como uma decisão política e orçamentária”, afirmou. Ele também destacou a necessidade de fortalecer a governança regional e de enfrentar desafios relacionados à organização do trabalho em saúde e às transformações tecnológicas. Apesar do cenário, avaliou que o SUS mantém uma capacidade singular de resposta diante de seus desafios.
Paulo Amarante, por sua vez, trouxe para o centro do debate as disputas em torno das políticas públicas e das formas de construção do cuidado. Ao abordar a trajetória da Reforma Psiquiátrica, destacou a importância de romper com a lógica que reduz sujeitos à condição de pacientes passivos. “É preciso deslocar essa identidade de paciente para a de usuário do SUS, reconhecendo o protagonismo das pessoas”, afirmou.
Amarante também criticou a fragilidade de políticas públicas estruturantes, especialmente nas áreas de educação e saúde mental, e relembrou impasses históricos do movimento sanitário, como a não convocação de uma conferência específica de saúde mental à época da 8ª Conferência. Ao mencionar o cenário atual, apontou tensões persistentes, incluindo disputas em torno de modelos de cuidado que colocam em risco os princípios da reforma psiquiátrica brasileira.
A programação integra uma série nacional de debates que percorrerá outras capitais brasileiras ao longo de 2026, reunindo pesquisadores, militantes históricos e novas gerações de ativistas para refletir sobre os rumos do SUS e os desafios da saúde pública no Brasil contemporâneo.
Assista a mesa completa:


